É preciso dizer que Jon M. Chu e Lin-Manuel Miranda são os artistas atuais mais populares no quesito representatividade em Hollywood. Chu é responsável por trazer o primeiro filme norte-americano em 25 anos com um elenco totalmente asiático e asiático-americano – “Podres de Ricos” -, enquanto Miranda é a mente por trás de “Hamilton”. O encontro entre os dois resulta em uma produção cativante com uma narrativa carregada de pertencimento, além de ser visualmente e musicalmente primorosa.

“Em um Bairro de Nova York” acompanha os dramas de oito personagens em Washington Heights, um bairro de Nova York com população predominantemente latina, mas, que vem atraindo a atenção de hipsters e agentes do mercado imobiliário e, com isso, diminuindo a presença dos imigrantes hispanos. Usnavi (Anthony Ramos) é o catalizador dessa história: dono de mercadinho, ele sonha em voltar para Republica Dominicana e ter a vida que seus pais levavam antes de irem para os EUA. Este é o seu sonho, mas cada um dos sete coadjuvantes possui seus próprios suañitos.

Por dentro dos moradores de Washington Heights

O roteiro adaptado do musical de Miranda e Quiara Alegria Hudes (que também assina o roteiro do filme) é eficaz em envolver e gerar identificação com o público. A adaptação de “Em um Bairro de Nova York” conta com uma característica popularizada pelo teatro shakespeariano: uma abertura marcante com delimitação da apresentação de seus personagens. A música inicial, a qual leva o mesmo nome do musical, deixa evidente sobre quem são os protagonistas e quais elementos são visualmente correspondentes a cada persona. Seja o leite de Usnavi, o microfone de Benny (Corey Hawkins) ou a angústia que acompanha Vanessa (Melissa Barrera). Apontando, também, as questões que permearão a narrativa.

A duração (2h22) possibilita que conheçamos cada um dos personagens centrais e lhes confira profundidade e desempenho vocal. Há tempo até mesmo para introduzir músicas que apenas ambientam a trama, como é o caso de “Piragua” – canção interpretada por Lin-Manuel Miranda em parceria com Chris Jackson (sim, o George Washington de “Hamilton”). Outro aspecto positivo é a oportunidade de vermos rostinhos ainda não tão populares em cena que, além de carregarem a latinidade em seus corpos e gestos, entregam performances carregadas de simplicidade e beleza que tornam a experiência, ao mesmo tempo, épica e singela. O destaque fica para Anthony Ramos, demonstrando ser um ator carismático e com potencial para crescimento. É sempre prazeroso acompanhar seus projetos.

Pertencimento e Resistência

Ainda que soe cansativa, a duração serve para transpor o senso familiar de comunidade que guia “Em um Bairro de Nova York”, além de ser relevante para compreensão e valorização cultural. Os trechos em espanhol e as figuras emblemáticas, como Abuela (Olga Merediz) e a moça que vai para uma faculdade de renome e se torna uma referência no bairro (Leslie Grace), assumem um tom de resistência, especialmente se pensarmos que o musical da Broadway é anterior ao governo Trump. De forma semelhante, o mercadinho de Usnavi também possui esse valor, visto que ele é um dos poucos lugares de referência da comunidade latina que sobreviveu as transformações socioeconômicas. Sua localização remete de forma menos invasiva à pizzaria do Sal em “Faça a Coisa Certa” e ao Mangrove de “Small Axe”.

“Em um Bairro de Nova York” é, sobretudo, um convite a pensarmos no pertencimento e como a gentrificação urbana afeta comunidades, culturas e vidas. Esse processo é utilizado para discutir questões politicas imigratórias e raciais. Uma das grandes sacadas de Hude e Chu é trazer isso sobre um olhar cotidiano, sempre apontando para coisas simples e corriqueiras como um pão na chapa, um sorvete ou uma ida ao clube que se desdobra em um ponto de disseminação cultural e movimentação política. Dessa forma, as vítimas desse projeto de modernidade e expansão são humanizadas reacendendo discussões em torno da importância de sentir-se inserido na coletividade e do peso da ancestralidade.

Este é um filme marcante. Seja por sua latinidade, interpretações ou cunho político, “Em um Bairro de Nova York” consegue cativar um lugar aquecido na memória afetiva, nos fazendo reflexionar sobre nossos próprios suañitos e como podemos fazer a diferença em nossa comunidade. Vale a pena assistir em família e sair cantarolando por uma Piragua por aí.

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