Não deixa de ser curioso parar pra pensar o quanto do amor depende do tempo. Você poderia dizer que um casal jovem anseia pelo futuro juntos, da mesma forma que um de longa data se fortalece nas memórias que partilham… “Embryo Larva Butterfly”, segundo filme de Kyros Papavassiliou, é uma terna produção que se pergunta como as relações amorosas são possíveis sem esse fio-condutor.

O cineasta cipriota faz isso através da lente do sci-fi, criando uma realidade em que os dias saltam para frente ou para trás – um fenômeno chamado “tempo arbitrário” no filme. É nesta realidade que Penelope (Maria Apostolakea) e Isidoros (Hristos Sougaris) vivem a sua relação. Diante da possibilidade de migrarem para uma realidade com “tempo linear” (como esta, onde esta crítica existe), eles precisam fazer uma difícil escolha.

O conceito que serve como pedra-chave do longa é fascinante e misterioso. Neste microcosmo, as pessoas são obrigadas a marcar as datas que vivem em calendários e fazer planos limitados, pois não sabem se vão acordar em uma manhã daqui a uma semana ou três anos antes, por exemplo.

Porém, os desdobramentos psicológicos e morais que o roteiro – assinado pelo realizador – propõe são ainda mais perturbadores. Com o passado e o futuro em fluxo, a sociedade perde a noção da causalidade e alguns acontecimentos se tornam inexplicáveis. Dentro de um relacionamento, se você acorda anos no futuro com uma criança em sua casa, como saber se você é pai ou mãe dela?

São nestes detalhes que o filme alça voo. Mesmo experimentando bravamente com a cronologia, ele nunca perde o foco do peso emocional de sua trama. Apesar de se vestir como um épico futurista, cuja história perpassa quase duas décadas, “Embryo Larva Butterfly” é, no fundo, o íntimo retrato de um romance. Delicado e provocador, à sua maneira, ele faz o tempo parar.

Autor

  • Lucas Pistilli

    Jornalista e advogado baseado no Reino Unido. Cobre eventos cinematográficos internacionais como os festivais de Cannes, Karlovy Vary e Londres. Já foi repórter das edições impressa e digital do jornal amazonense A Crítica, onde escreveu sobre cultura, economia e política. Hoje, além do Cine Set, também colabora para o site cinematográfico britânico DMovies.org e assina o blog Culture Frequencies (ambos em inglês).

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