Deprecated: Automatic conversion of false to array is deprecated in /home/cinesetc/public_html/wp-content/themes/Extra/core/functions.php on line 1469
Demorou 23 anos — ou melhor, 28, para seguirmos a cronologia dos filmes — mas o apocalipse zumbi finalmente rendeu. Esqueça os tempos de filosofia de botequim sobre a “selvageria” da raça humana. Esqueça o suposto “frenesi” imagético, que torna impossível discernir qualquer coisa da ação. A simplicidade é a alma do negócio.
Não que Danny Boyle tenha cessado de chacoalhar sua câmera a torto e a direito; é que agora os quadros permanecem em tela por tempo o bastante para que possamos entender o que de fato está acontecendo.
E é a própria narrativa que pede por esse respiro: quase três décadas depois da epidemia viral que dizimou a Grã-Bretanha, os campos estão calmos, os animais correm soltos, o vento chacoalha as árvores. Em “Extermínio: A Evolução”, Boyle mergulha fundo no bucolismo e chega a resultados quase impressionistas, com girassóis se estendendo rumo ao horizonte e distorções cromáticas de fazer gosto a um Van Gogh (cortesia da combinação de teleobjetivas, obturadores velozes e sensores digitais). Que diferença, se lembrarmos da feiura modorrenta que assolava o longa original!
Todas essas mudanças — para melhor, já vimos — acompanham ainda uma última novidade: aqui, o filme de zumbi divide espaço com o drama coming-of-age. No centro da trama, temos Spike (Alfie Williams) e sua mãe moribunda (Jodie Comer). No seu caminho, ritos de passagem, desilusões com o pai (Aaron Taylor-Johnson) e infectados mil. Esse melodrama simples se utiliza do cenário apocalíptico com muita esperteza para culminar em passagens de verdadeira catarse grotesca — desde o parto de uma zumbi gestante até o clímax emocional envolvendo crânios reluzentes. Este último momento é tão devastador nas suas implicações, e tão bizarro na sua imagética perversa, que me vi obrigado a rir de nervoso. Bom sinal.
Como é tudo mais simples (lembremos que o melodrama familiar do segundo filme tinha como pano-de-fundo tensões geopolíticas entre EUA e Reino Unido, algo que está longe das preocupações deste “A Evolução”), até mesmo as invencionices de Danny Boyle ganham espaço para respirar. Não é só que o sujeito tenha melhorado como diretor de ação; é que as próprias ideias formais do cineasta são melhor aplicadas. Há uma sequência, logo no início da projeção, em que Boyle entrecorta uma caminhada de pai e filho com imagens de guerra, montagem que seria irritante em qualquer outro contexto. Se não é o caso aqui, é porque a repetição das imagens e o fluxo dos sons parece apontar mais para a abstração musical, para um jogo rítmico de aceleração e desaceleração, do que para qualquer tipo de comentário “profundo”.
Claro, o roteiro de Alex Garland tem seus problemas. A ideia de uma derrocada da figura paterna é confirmada como o grande mote do filme apenas na última cena, de forma para lá de forçada. Mas, principalmente, o maior pecado deste “Extermínio” é simplesmente o fato de ele não ter um final. Sim, o clímax emocional acontece, mas ele parece mais um ponto de virada no meio da trama do que uma resolução propriamente dita — um “e agora?” que nos deixa mais interessados pelo que está por vir.
Mas nada vem. Como um carro sem gasolina, “Extermínio: A Evolução” simplesmente para no meio da pista — justamente quando parecia acelerar. Isso se deve, é claro, a razões mercadológicas: há aparentemente mais dois capítulos de uma trilogia em desenvolvimento. Lucro (será?) para Hollywood, frustração para o espectador casual.
Como consolo, sobram os prazeres simples da trama, a saber, zumbis gordos rastejantes comendo minhocas, zumbis marombas com pênis gigantescos balouçando ao vento e coisas do tipo.














