Tive a honra de entrevistar duas vezes Selma Bustamante: a primeira foi na casa dela sobre o lançamento de “Purãga Pesika”, curta-metragem em documentário dirigido por ela em parceria com César Nogueira. A segunda foi para o programa “Decifrar-te”, da TV Ufam, no Teatro da Instalação. A palhaça, diretora de teatro e ‘cretina’ para os mais íntimos tinha um entusiasmo comovente ao falar sem parar (o primeiro encontro durou mais de 2h!) e uma delicadeza ímpar ao incorporar Kandura, sua personagem mais célebre. Era política sem ser maçante. Era ácida com leveza. Inteligente e visionária como poucos em Manaus.  

“Kandura”, documentário dirigido pelo ator e jornalista Wallace Abreu e lançado no mesmo Teatro da Instalação, homenageia Selma ao recontar sua trajetória e legado para a arte circense em Manaus. Reúne familiares de São Paulo, colegas do Piauí, onde morou no fim dos anos 1980 e início dos 1990 antes de chegar a Manaus e fixar residência, fazendo admiradores e amigos. Apesar das melhores intenções, o documentário, entretanto, adota um caminho oposto de sua personagem travado em suas aparentes limitações e adotando uma abordagem conservadora por demais. 

Curioso observar como o filme dá indícios de que seguirá por uma outra linha em sua bela sequência inicial. Marcada por uma versão melancólica da clássica cantiga “Se Essa Rua Fosse Minha”, acompanhamos corações de papel vermelho, dados por Kandura ao público no fim de cada apresentação, caírem no chão lentamente enquanto uma jovem coloca um barco de papel para navegar em uma tigela de água. O lirismo simbólico de uma artista na contramão daquilo que se estabeleceu no imaginário popular do artista circense e, mesmo assim, capaz de nos tocar com sua poesia por onde quer que passe se demonstra certeira.  

Essa veia poética, entretanto, repete-se apenas na cena final. Ao longo da uma hora de duração, “Kandura” mostra rigidez em sua abordagem. Temos uma sucessão de entrevistas em sequência dando informações e mais informações sobre a trajetória de Selma a partir de bloco temáticos. Tais momentos são preenchidos por fotos, matérias de jornais e intercalados por apresentações teatrais ou imagens de programas de TV.  

A estrutura não se altera, o que torna inevitável o cansaço após certo tempo por simplesmente ser possível decifrar o que esperar em seguida – Jorge Bandeira, do Espaço Cultural Sebo O Alienígena, por exemplo, surge sempre com a missão de contextualizar o espectador sobre a relevância cultural e histórica de Selma. A ideia de deixar os entrevistados fixos no mesmo lugar sem aproveitar o espaço a sua volta amplifica esta sensação e até entra em contradição com o espírito inquieto de Selma – não nego que diversas vezes pensei como a potência dos depoimentos teria sido outra com os personagens mais à vontade vagando por espaços tão ligados à artista.   

Artifícios para equilibrar esta veia quase jornalística para uma pegada mais artística ou (por que não?) cinematográfica acabam fazendo falta. A ausência de trilha sonora para quebrar o ritmo das entrevistas e contribuir para a transição entre os blocos temáticos cria um vazio emocional e narrativo cristalino, ainda mais quando comparado aos momentos em que surge – novamente, as sequências inicial e final vem à mente. Até mesmo possibilidades gráficas seriam saídas criativas para contar a história de forma mais dinâmica – aqui, vale recordar o que Flávia Abtibol faz no ótimo “Dom Kimura” sobre a trajetória de Raimundo Maia Ismael, lutador de telecatch e fundador da Voz Praiana.

Se a rigidez na forma acaba sentida na própria abordagem dos temas – pouco se fala de política, assunto tão caro a Selma -, a reta final, pelo menos, explicita a razão principal de ser do documentário. Com os depoimentos emocionados de Klindson Cruz e do próprio Wallace Abreu, a produção serve como uma celebração e despedida definitiva, especialmente, aos amigos de Manaus e Teresina que não tiveram a oportunidade de dar o último adeus. Não se apaga, claro, também ser um registro histórico e eterno de uma palhaça que deu seu coração e talento ao público, mas, como comprova o barquinho de papel ao resistir bravamente a uma correnteza um pouco mais forte do Rio Negro no fim do filme, “Kandura” poderia (e deveria) ser mais atrevido. 

‘3×4’: na simplicidade, a imensidão dos sentimentos

“3×4” marca ótima estreia de Juliana Tizatto na direção e roteiro a partir de grandes atuações de Andira Angeli e Isabela Catão.

‘Tarde Dentro da Tarde’: um rio de lugares comuns

Já que o rio sempre teve especial destaque nos filmes de Rafael Ramos, Tarde Dentro da Tarde talvez seja apenas um caso de leve maré baixa.

‘Jamary’: fantasia amazônica perdida em sucessão de problemas

Do básico do plano-contraplano a uma história sem rumo, Jamary, de Begê Muniz, se mostra uma grande confusão.

“A Terra das Estrelas Distantes”: a eterna busca do que é ser amazônida

“A Terra das Estrelas Distantes” parece querer nos lembrar, que a verdade do nosso passado também permanece escondida de nós mesmos.

‘Flores Secas’: melodrama de Arnaldo Barreto cai na maior armadilha dos curtas-metragens

Com tantos personagens e pretensões temáticas, Flores Secas, de Arnaldo Barreto, não consegue dar conta de praticamente nada que aspira.

Crítica | ‘As Versões que você fez de mim’, de Roger Barbosa

“As versões que você fez de mim” tenta ser intimista e reflexivo, mas a construção do protagonista se distancia desses dois aspectos.

‘Antes de Hoje’: curta carece de densidade ao abordar juventude marcada pela pandemia

Curta de James Bentes, ‘Antes de Ontem’ peca com superficialidade e sem contundência para tratar de jovens na pandemia.

‘Sete Cores da Amazônia’: longa amazonense experimenta altos e baixos extremos

Dirigido por Ana Lígia Pimentel, “Sete Cores da Amazônia” se atrapalha em trama urbana, enquanto cresce ao partir para a floresta.

‘Obeso Mórbido’: conto cru sobre obsessão, corpo e identidade

Obeso Mórbido é um forte conto sobre um indivíduo e suas lutas obsessivas e o vazio interminável do homem e seus (des)prazeres.

‘Márcia Antonelli – Das Palavras à Sobrevivência’: cinema de luta, memória e identidade

Mariellen Kuma entrega um curta metragem que usa as palavras para dar o tom ao seu cinema e mostrar como a jornada, quando reconhecida, entrelaça afetos.