Houve uma época em que a Warner Bros. podia se gabar – e às vezes até se gabava – de ter sido a que mais dava liberdade a diretores em Hollywood para realizarem suas visões autorais. Mas épocas passam e hoje Hollywood vive na era das franquias, das IPs –as propriedades intelectuais – e das marcas. O cinema voltado a IPs é antagônico, quando não hostil, a uma visão autoral: os fãs de Harry Potter aceitaram de boa os filmes de um diretor sem personalidade como Chris Columbus, mas será que teriam aceitado um dirigido por Terry Gilliam, mesmo com a J. K. Rowling aprovando o nome dele? Em anos recentes vimos como uma visão mais diferenciada e autoral pode ser mal recebida nas grandes franquias – é só nos lembrarmos do ainda polêmico Star Wars: Os Últimos Jedi (2017) dirigido por Rian Johnson, ou, por que não, dos filmes de Zack Snyder com os super-heróis do Universo DC – goste-se ou não do cara, você imediatamente reconhece a assinatura dele.

E então, de repente, James Gunn faz O Esquadrão Suicida com fúria, cinismo e 100% de acordo com a sua visão. A Warner lhe deu US$ 185 milhões para se divertir e ele o fez, com certeza, aproveitando o breve período em que foi demitido pela Disney. E de quebra, diverte o público: O Esquadrão Suicida é, fácil, o melhor filme com super-heróis da DC em muito tempo e um claro exemplo de como a visão de um diretor faz diferença, sim, mesmo no cinema industrial atual. A façanha de Gunn se torna até mais impressionante quando nos lembramos do outro Esquadrão Suicida, o filme de 2016 dirigido por David Ayer que virou um Frankenstein horroroso por causa da interferência do estúdio. A Warner aprendeu com os erros? Vamos ver se o futuro confirma isso…

ODE AOS ESQUISITOS

É curioso notar como os dois filmes se parecem e, ao mesmo tempo, diferem. O ponto de partida é praticamente o mesmo: neste O Esquadrão Suicida, Amanda Waller (vivida por Viola Davis) reúne de novo uma equipe de desajustados com superpoderes para uma missão. A diferença é que, agora, ela envolve um país fictício na América Central que acabou de sofrer um golpe militar e cujos governantes estão mexendo com uma perigosa tecnologia extraterrestre. E lá vão de novo para a ação figuras como a Arlequina (Margot Robbie) e Rick Flag (Joel Kinnaman), acompanhados do Sanguinário (Idris Elba) – que passa praticamente pelo mesmo conflito do personagem do Will Smith no filme anterior – e de uma personagem que comanda ratos, um homem que dispara bolinhas e um tubarão ambulante – dublado por Sylvester Stallone – entre outros. Vários não chegarão vivos ao final do filme, aliás.

A maior diferença é que, no filme de Gunn, o espectador não é tratado como idiota. Como criança, às vezes sim, porque é necessário um espírito meio infantilóide para apreciar algumas das piadas e o filme não tem pudor em apelar para um humor estilo 5ª. série quando preciso. Mas como idiota, não: aprendemos quem são os personagens por meio de suas ações sem ficar alardeando quem são o tempo todo para reforçar o que já tínhamos entendido, e a interação entre eles funciona, sem ser forçada. Quando amizades surgem entre o grupo, o investimento emocional é válido e merecido, e o público também passa a admirar aquelas figuras. O Esquadrão Suicida é praticamente uma ode aos esquisitos, às pessoas que não se encaixam.

Isso é uma noção bem cara a James Gunn, que aqui aproveita a chance de fazer um espetáculo insano e grotesco – um que ele não poderia ter feito na Marvel, por exemplo. Por mais bem sucedidos que tenham sido seus Guardiões da Galáxia, ele jamais poderia explodir cabeças e corpos num filme Disney como faz aqui. Este O Esquadrão Suicida sim, honra sua premissa, e seu senso de humor demente leva a história a algumas direções até inesperadas.

ESPÉCIME RARA EM HOLLYWOOD

Gunn pegou apenas o que deu certo no anterior – basicamente, só Davis, Robbie e Kinnaman, sem o elemento disruptivo de Smith – e fez o seu filme. Sobre os atores, todos demonstram estar se divertindo a valer. Figuras como Robbie e Elba brilham, claro, mas curiosamente os atores que roubam a cena são John Cena como o Pacificador – que de amante da paz não tem nada – e a dupla Daniela Melchior como Caça-Ratos II e David Dastmalchian como Bolinha. Esses dois personagens esquisitos acabam sendo o coração do filme e são responsáveis pelos momentos tocantes dentro da história – Gunn é cínico, mas não tanto. Seu carinho por figuras desajustadas e conexões emocionais incomuns fazem parte da sua obra.

Claro que, por ser um filme com ideias malucas em demasia, algumas coisas não funcionam. O meio da história com um dos ditadores se envolvendo com Arlequina e uma perseguição sem função na narrativa faz o ritmo cair um pouco. Esse trecho apresenta ideias bobas demais até para os padrões do filme… Mas, pouco depois, Gunn e seu elenco inspirado se recuperam, introduzem no ato final um antagonista que deve trazer sorrisos aos conhecedores dos quadrinhos DC, e no decorrer do caos e dos efeitos visuais – consistentemente bons, aliás – até faz a gente se emocionar um pouquinho.

O Esquadrão Suicida abraça os absurdos do universo dos quadrinhos, faz o público rir e, às vezes, sentir vergonha por estar rindo, e acaba resultando numa experiência incomum que só almeja a diversão do espectador. Não é um filme para quem busca meditar sobre o sentido da vida, mas em termos de blockbusters escapistas, ele se sai muito bem.

E consegue essa proeza sem sacrificar a personalidade de seu criador. Chega a ser quase um daqueles casos de “mas como isso foi feito na Hollywood de hoje?”. Talvez esse acabe sendo realmente o diferencial que a Warner/DC pode apresentar nas telas: ao invés de copiar a Marvel de forma apressada e inconsequente, o estúdio bem que poderia retomar suas velhas tradições com mais confiança.

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