Afinal, o que determina um filme como “infantil”?

É ter a classificação indicativa livre? Ou condensar assuntos em uma trama que interessa apenas às crianças?

Para muitos, um filme infantil é uma obra fadada a superficialidades, passatempo divertido sem potencial introspectivo. É exatamente contra este tipo de pensamento que Daniel Rezende apresenta seu mais novo trabalho como diretor: ‘Turma da Mônica: Laços’ caminha contra a corrente reducionista de obras do gênero ao aproveitar os potenciais dos quadrinhos de Maurício de Souza para construir uma história sobre amizade e laços afetivos.

“Turma da Mônica – Laços” apresenta os famosos moradores do bairro do Limoeiro em mais uma aventura: Mônica (Giulia Benitte), Magali (Laura Rauseo) e Cascão (Gabriel Moreira) se juntam a Cebolinha (Kevin Vechiatto) para resgatar seu cachorro Floquinho. Nesta trajetória, os quatro amigos fazem descobertas sobre si mesmos e superam conflitos internos.

Com uma trama simples, o roteiro de Thiago Dottori foca em articular as relações entre seus quatro protagonistas e em desenvolvê-los continuadamente até o fim. Assim, é possível notar os esforços em não deixar um personagem se sobressair tanto quanto outro, aproveitando a boa dinâmica entre o elenco mirim. Seja em tramas coletivas ou individuais, assuntos relevantes para o público infantil vão surgindo na narrativa, um trabalho que não é tão complicado assim, pois, naturalmente, Maurício de Souza criou um grupo com situações comuns às crianças: problemas alimentares (Magali), dificuldades na pronúncia (Cebolinha), negação ao banho (Cascão) e bullying (Mônica).

Esta última questão, inclusive, é muito bem aproveitada, pois, assim como nos quadrinhos, Mônica apresenta uma faceta sensível apesar de toda sua força. Mesmo antes do termo bullying se popularizar no Brasil, Maurício retratava isto em suas revistinhas e, agora, Daniel Rezende mantém esta narrativa sem a necessidade de rótulos ou diálogos didáticos. Desafiando mais ainda o que se conhece como “moral da história” (altamente necessária para filmes infantis), o diretor renega uma explicação óbvia para o bullying, definindo seus efeitos negativos em uma cena embalada apenas pela reação dos personagens, criando um momento sutil e comovente.

Este direcionamento para a relação entre os personagens deixa de lado subtramas como o teste de cosméticos em animais, as famílias dos protagonistas e o próprio antagonista, o Homem do Saco (Ravel Cabral). Este último, inclusive, acaba bem prejudicado pelo roteiro por não ter suas motivações explicadas ou tempo em cena suficiente para uma construção mais completa. Provavelmente é devido a esta superficialidade que o roteiro passa a apresentar consecutivos “atalhos” em sua última parte, fazendo a história avançar para seu desfecho a qualquer custo mesmo com explicações irrisórias, o que, felizmente não chega incomodar ou ser um grande problema.

Adaptação não limita; ela expande

Tanto como uma adaptação dos personagens quanto da graphic novel “Laços”, o filme consegue ser bem desenvolvido. Grande parte disto se deve à direção de arte, caracterizações e figurinos muito bem pensados e altamente imersivos. Os cenários e elementos cênicos possuem um aspecto lúdico que combina muito bem com a caracterização dos personagens, criando um universo próprio denominado como bairro do Limoeiro.

Outro fator que contribui muito para este universo expandido ser bem-sucedido é a escolha do elenco: os personagens principais funcionam perfeitamente para seus papéis, sem contar com as participações secundárias de Titi, Aninha, Quinzinho, Maria Cascuda e tantos outros.

O elenco adulto também é uma grata surpresa com Mônica Iozzi, Paulo Vilhena e Fafá Rennó como destaque. Para complementar as boas escolhas, os convidados especiais rendem ótimos momentos. Apesar da grande notoriedade ficar por conta do Louco (Rodrigo Santoro), as aparições de Leandro Ramos e Maurício de Souza também aquecem o coração dos fãs.

Daniel Rezende em novos

“Todas as áreas do cinema, todas elas, fazem a mesma coisa: contam histórias. Fotografia, direção de arte, atores, roteiro, figurino… E com a trilha sonora não é diferente”.

Esta frase de Daniel Rezende sintetiza bastante o importante trabalho da trilha sonora em ‘Turma da Mônica: Laços”. Durante toda produção, a música acompanha as nuances de seus personagens e, mesmo sendo muito marcante, não limita a liberdade criativa de inserir a delicada letra da música tema e clássicos da MPB, indo de Tiago Iorc a Fagner sem grandes esforços.

A direção de fotografia de Azul Serra também brilha: mesmo com sua extensa participação na série ‘O Mecanismo’, comparo seu trabalho nesta produção com a sugestiva fotografia adotada em ‘Aos Teus Olhos’. O mesmo pode ser dito sobre Daniel Rezende, mostrando versatilidade ao explorar caminhos diferentes do que vimos na série da Netflix e no comando de ‘Bingo: O Rei das Manhãs’.

Considerando tantos bons elementos, ‘Turma da Mônica: Laços’ se torna um grande destaque no cinema nacional este ano, principalmente, por ressignificar o mercado brasileiro de filmes infantis. Para o público geral, Daniel Rezende entrega um longa sensível e eficaz, já para os ávidos leitores dos quadrinhos, ele presenteia com uma obra compensadora, comovente e altamente significativa.

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