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Reviver ou rememorar tempos e lembranças: a nostalgia se intensifica cada dia mais nestes dias atuais tão difíceis. No cinema, temos uma dinâmica da arte como instrumento para espelhar ou reproduzir uma época, onde, desses lugares, boas representações são tiradas. O Último Episódio se apoia em fortes elementos nostálgicos a fim de retratar um período e sua essência.
Dirigido e roteirizado por Maurílio Martins, o filme segue Erik (Matheus Sampaio), um jovem de 13 anos, que vive sua adolescência cheia de descobertas junto dos amigos inseparáveis Cristiane/Cristão (Tatiana Costa) e Cassinho (Daniel Victor). Certo dia, o rapaz se apaixona por uma garota novata da escola, e dessa paixão, em impulso, mente dizendo que possui a fita do episódio final do desenho animado aclamado Caverna do Dragão. O Último Episódio nunca se exime dos seus princípios, tendo consciência de que se trata de um projeto de memória. Se retomarmos à questão nostálgica como semente de ideias, viramos observadores e visitantes daquela cidadezinha pacata mineira e seu cenário.
Ambientado em Contagem, interior de Minas Gerais, no início dos anos 1990, o filme não se sente acanhado em momento algum em abraçar suas tonalidades, sendo estas próprias de um filme de transição e amadurecimento da infância para a vida adulta. Nesse contexto, em um significado maior de conceito, o escritor e filósofo Albert Camus afirmou que “o pensamento de um homem é, antes de mais nada, sua nostalgia”. Seguindo essa linha de O Último Episódio, o exercício feito pelo roteirista/diretor é sua chave pessoal de testemunho e a tentativa de agarrar detalhes para constatar um sentimento; seja este de saudade, perda ou existência. Existe carinho, afeto e melancolia em sua visão, pois há muito a ser dito e acolhido, não só a forma que os dois melhores amigos são vistos, mas toda a admiração pela mãe e uma lembrança inesquecível do pai que permeia toda a estrutura.
A produção da Filmes de Plástico (que rendeu o ótimo Marte Um) grita por um saudosismo cativante em seus detalhes: além dos figurinos e penteados, camisetas do He-Man, chicletes da marca Ping Pong, televisores de tubo pela sala, as bandas de Rock R.E.M e Guns n’ Roses e, claro, Caverna do Dragão. Elementos comuns em evidência naquela época e que destacam um grande trabalho de direção de arte de Mariana Souto que nos transporta fortemente, criando uma Contagem palpável e cheia de vida.
Senti apenas que faltou um lastro maior na questão do aprofundamento de arcos coadjuvantes, como, por exemplo, os de Cristão e Cassinho. A importância dos dois para a amizade com Erik vale muito para a narrativa, no entanto, seus contos individuais, mesmo interessantes, são apenas tocados superficialmente e deixados para a sugestão do público.
Por toda a construção, O Último Episódio é carta apaixonada de seu realizador à época de sua juventude. Temas como vida, infância, passagem de tempo e amizade são a força do retrato nostálgico de coming of age mineiro. Saímos da sessão com gostinho de acolhimento de momentos tão únicos da qual lembramos e a citar a música Doce Mel – tão importante para o filme -, em sua passagem “Se tudo o que é livre, é super incrível, tem cheiro de bala, capim e chulé…”













