Oeste Outra Vez, do diretor e roteirista Érico Rassi, nos mostra um desfile de homens patéticos e emocionalmente destruídos. É um mosaico de masculinidade tóxica decadente, aliado à monotonia e ao tédio. Nesse sentido, é muito apropriado que o filme também seja, a seu modo, um faroeste, o gênero masculino por excelência do cinema. A ambientação e as explosões súbitas de violência pertencem ao gênero, agora povoado por machões dodóis do coração.
É uma história de corno, no fim das contas. No sertão de Goiás, lá nos rincões onde as pessoas conseguem desaparecer se quiserem, Totó (vivido por Ângelo Antônio) briga com Durval (Babu Santana) porque este lhe “roubou” sua mulher – aliás, essa é a única personagem feminina que aparece no filme, ela não fala nada e deixa a tela com dois minutos de filme. Totó, então, contrata um pistoleiro (Rodger Rogério) para dar cabo do seu rival. Mas as coisas não saem como esperado e logo várias pessoas vão acabar morrendo por causa disso.
É um belo filme, de ritmo lento, mas nunca enfadonho, que nos faz sentir o vazio da existência daqueles personagens através dos planos precisos, das belas composições e pela exploração da natureza, por meio da fotografia de André Carvalheira. As paisagens amplas contrastam com a pequenez e a rudeza dos personagens. Eles usam celulares na trama, mas andam a cavalo ou em carros muito velhos, e passam por vilas esquecidas no mapa ou por barracos perdidos no meio do mato. Há apenas os mínimos elementos para nos fazer ter consciência de que a história se passa nos tempos atuais, mas o contexto é totalmente arcaico.
Em alguns momentos, é quase como se fosse um Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), substituindo o dinheiro pelo desejo de vingança de um corno. No entanto, se a forma por vezes lembra o gênero que nasceu nos Estados Unidos, o conteúdo é tipicamente brasileiro, com seus trechos de comédia – chega a ser hilário como, num filme cheio de pistoleiros, os caras raramente acertam seus alvos – e músicas bregas e populares servindo como contraponto às ações. Mas a intenção real de Rassi é mostrar o lado trágico daquela situação e daqueles homens, presos numa espécie de ciclo de violência sem sentido criado por eles mesmos.
Em dado momento, a história pega uma tangente e passa a enfocar dois pistoleiros (Daniel Porpino e Adanilo). Até eles também servem para compor o retrato que o filme cria dos machões que resolvem as coisas na bala, especialmente seus problemas sentimentais. Mesmo assim, os personagens nunca surgem como simples caricaturas e parecem tristemente reais – também contribuem para isso as ótimas atuações do elenco, todos em sintonia com a proposta e sem medo de abraçar o lado ridículo daquelas figuras.
Sempre ouvimos o lugar-comum de que existem filmes de homens e filmes de mulheres – o clichê diz que ação e faroeste são gêneros masculinos, enquanto comédias românticas e dramas geralmente são mais apreciados pelo público feminino. Embora isso seja uma simplificação, é fato que diferentes pessoas se sentem mais (ou menos) atraídas por determinado tipo de história, dependendo das suas bagagens culturais.
Oeste Outra Vez se vale dessa noção para fazer algo bem mais sofisticado e interessante: usa o gênero para subverter padrões e questionar o papel do homem naquele universo. No fim das contas, aqueles personagens lutam por mulheres mesmo, ou para enfrentar o tédio e a falta de sentido das suas vidas? Ou há outro subtexto ali presente, como aparece em algumas histórias onde temos muitos homens juntos, incapazes de encarar seus sentimentos? De forma inteligente, o filme propõe essas questões e deixa que cada espectador tire sua conclusão.
A única certeza é que, naquele mundo, todos são patéticos, palhaços tristes de quem o espectador às vezes ri, às vezes se compadece, e onde não há heroísmo, só bares e jogos de sinuca no fim do amplo horizonte. Não é à toa que as mulheres querem manter distância.














