Pai e filha se unem para uma dose de espionagem familiar em “On the Rocks”, novo filme de Sofia Coppola (“Encontros e Desencontros”, “O Estranho que Nós Amamos”). Depois de estrear no Festival de Nova York no mês passado, o filme agora é lançado mundialmente na Apple TV – e com seu tom leve e bem-humorado, parece feito sob medida para sessões pipoca no sofá.

Laura (Rashida Jones, da série “Parks and Recreation”) é uma nova-iorquina que está tentando tirar um livro do papel num momento incerto da vida. Certa noite, seu marido David (Marlon Wayans, de “As Branquelas”) chega em casa, um pouco alto, e começa a beijá-la animadamente na cama. Quando ela chama a atenção dele, ele para e resolve dormir.

Nervosa com a possibilidade de que ele tenha confundido-a com outra e esteja tendo um caso, ela resolve encontrar-se com seu pai ausente – o playboy milionário Felix (Bill Murray) – para um papo-cabeça sobre o comportamento masculino. Ele, por sua vez, tem um plano mais mirabolante: seguir David para pegá-lo no ato. Relutantemente, Laura compra a ideia e os dois começam a procurar pistas pela cidade como uma dupla de detetives particulares e, o que poderia ser uma simples trama de infidelidade, vira um filme de espionagem com muito ternura.

ECOS DE ‘ENCONTROS E DESENCONTROS’

O roteiro de Coppola vê a diretora abraçar abertamente a comédia, contendo o material mais engraçado e leve já escrito por ela e uma trama impressionante em sua simplicidade. Ela continua interessada nos dramas do 1%, mas de todos os seus filmes, a história de “On the Rocks” é que mais parece um causo que poderia acontecer com você ou seu vizinho.

O visual que não chama a atenção para si reforça esse teor comum. O diretor de fotografia Philippe Le Sourd, que encheu “O Estranho Que Nós Amamos”, filme anterior da diretora, com uma luz difusa e asfixiante, opta aqui por tomadas e cores práticas que permitem ao público focar-se completamente na trama.

A presença de Murray traz ecos de “Encontros e Desencontros”, uma conexão com a qual a cineasta flerta em algumas cenas (como na aparição do robô aspirador aos 16 minutos). É irônico que os papeis do ator em ambos os filmes não possam ser mais diferentes: enquanto Bob, seu personagem em “Encontros”, era um tímido peixe fora d’água, Felix é um bon vivant expansivo em pleno habitat natural.

Murray consegue não só trazê-lo à vida como fazer com que isso pareça extremamente fácil, roubando com facilidade todas as cenas em que aparece. Em suas mãos, um mulherengo incurável e cartunesco ganha outras dimensões, com sua alma e seu histórico de más decisões aparecendo em fragmentos de falas.

Apesar de ser um coadjuvante, suas ações, no afã de passar mais tempo e se reconectar com a filha distante, guiam a história. É esse cerne singelo que torna “On the Rocks” um prazer de ser visto, ainda que não figure entre as grandes obras da diretora. Arriscando-se em um novo tom, Sofia Coppola produziu um ótimo filme Sessão da Tarde para os cults de plantão – só faltam os intervalos comerciais.

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