Uma temporada de férias na Grécia vira uma incômoda viagem ao passado para a protagonista de “A Filha Perdida”, filme que marca a estreia da atriz Maggie Gyllenhaal na direção. A produção foi exibida no Festival de Londres deste ano após sua ovacionada estreia em Veneza, onde rendeu a Gyllenhaal o prêmio de Melhor Roteiro. O longa, que chega ao catálogo brasileiro da Netflix em dezembro, é um retrato brutal de uma mulher que não fez as pazes com a sua condição de mãe.

Nele, Leda (Olivia Colman) é uma acadêmica em busca de paz e sossego em terras gregas quando se depara com Nina (Dakota Johnson), jovem que vive um relacionamento super tóxico com um criminoso local. As duas mulheres, que dividem uma relação ambivalente com a maternidade, se aproximam e Leda começa a ter dolorosos flashbacks da época em que suas filhas eram pequenas, décadas antes.

MATERNIDADE NÃO-NATURAL

O roteiro de Gyllenhaal, baseado no livro homônimo de Elena Ferrante, é preciso ao dar voz à rebeldia silenciosa de sua personagem principal. Inteligente e determinada, Leda é uma mulher para a qual os sacrifícios da maternidade são anátemas – mas também bastante carente das afeições de suas filhas.

Essa tensão está no cerne de seu egoísmo cruel, o qual a leva a se descrever como uma “mãe não-natural”. A justaposição entre ela e Nina – alguém que fez todas as concessões que Leda recusou, mas que tampouco é feliz – deixa uma pergunta amarga no ar grego banhado de sal: o que é, então, uma mãe natural?

Entre flashbacks reveladores (habilmente montados pelo editor brazuca Affonso Gonçalves, de “Paterson” e “Carol”), Leda é pintada como alguém perenemente na terra de ninguém existindo entre seus desejos e a sublimação do papel parental – que ocorre especialmente se você for mulher. Ela sonha com uma maternidade calma e irreal, que não envolva comprometimento – simbolizada através de sua obsessão por uma boneca, o objeto que mais recebe sua afeição durante os 121 minutos de projeção.

COLMAN ENTRE O VULNERÁVEL E O CÔMICO

A personagem é um prato cheio para uma atriz do nível de Colman, que está mesmerizante. A atriz inglesa é uma das melhores em atividade há, pelo menos, meia década, mas cujos papéis mais conhecidos tendem a não ser seus mais impressionantes, como as rainhas que interpretou no filme “A Favorita” (pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Atriz) e na série “The Crown”. Aqui, ela entrega uma performance cheia de vulnerabilidade e preciso teor cômico – extraído do distanciamento que Leda impôs entre si e o mundo diante de sua tragédia pessoal.

Gyllenhaal alterna com maestria entre drama e comédia ao mesmo tempo em que cozinha uma atmosfera de thriller em banho-maria, com um segredo que Leda esconde de Nina ameaçando destruir o frágil castelo de cartas de sua estadia na Grécia. Em “A Filha Perdida”, ela exibe ampla maturidade – especialmente para uma diretora estreante – e entrega um drama complexo e adulto que Hollywood não acredita mais ser material para salas de cinema. Quem ganha são os usuários de streaming.

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