“- Mãe, você acredita que a melhor base para o amor é a amizade?

– É raro, mas você deve seguir seu coração.”

Diálogo entre Colin e Violet Bridgerton.

Tem uma coisa que me chama atenção quando vejo dois amigos que se amam romanticamente: é o quanto todos ao redor percebem aquilo que eles não compreendem. Não consigo ver como isso pode ser bom; imagine estar ao lado de quem você ama e não ter ideia da profundidade dos seus sentimentos. Mas não quero filosofar ou tornar isso aqui um divã, mesmo porque a proposta de William Bridges em “Por Inteiro” não é essa, mas sim observar como o desencontro de dois amigos que vivem um eterno friends-to-lovers, tropo de amigos para amantes, se torna um turbilhão que os afunda.

Acompanhamos Simon (Brett Goldstein) e Laura (Imogen Poots) no decorrer de 12 anos de amizade e amor romântico. O roteiro assinado pelo diretor ao lado de Brett Goldstein, que interpreta Simon, tem como um dos antagonistas do casal a ciência: o uso de medicações e algoritmos para que você encontre a sua alma gêmea. Enquanto Laura adere e encontra um parceiro com quem decide casar e ter uma família, Simon decide seguir o tradicional e encontrar um parceiro como fazíamos antes dos aplicativos de namoro. Suas escolhas os conduzem a se moverem em direções opostas, embora algo sempre os traga de volta um ao outro.

Para contar essa narrativa, “Por Inteiro” se passa em pulos de tempo, no qual acompanhamos os momentos em que o par se encontra, geralmente eventos ou situações que os unem como anúncio de gravidez, velório, lançamento de livros, entre outros. Com uma fotografia escura, é interessante a atmosfera criada pela direção de Bridges nessas aproximações, uma vez que há um clima de desconforto palpável. Por um lado, há o conforto de que seu amigo é a pessoa que você mais ama e se sente a vontade no mundo; na mesma proporção, há o desalento e mal-estar de ter um parceiro com quem você deveria sentir isso, mas é com seu amigo que você realmente se sente inteiro, completo. Zawe Ashton e Steven Cree conseguem evidenciar o constrangimento de ser a terceira roda em uma relação em que você deveria ser a complementaridade. 

Parte desse clima desconfortável, no entanto, é favorecido pelo vazio que acompanha a história de “Por Inteiro”: Simon e Laura estão tão obcecados um pelo outro e em manter-se longe desses sentimentos, que os momentos em que se reúnem parece faltar algo. Ou melhor, outras pessoas que orbitem em torno da existência dos dois e evidenciem o diferencial da amizade deles para além de um estar sempre em colisão afetuosa com o outro. Seus parceiros, por exemplo, geralmente estão nas cenas de reunião, mas não sabemos como é a relação dos dois casais fora desses encontros, o que influencia ainda no enfraquecimento potencial da história de amor entre os dois amigos.

As coisas desandam por completo quando a queima lenta — um plot clássico do friends-to-lovers — é interrompida e o casal alcança o ápice do seu relacionamento. A forma como isso é abordado em “Por Inteiro” faz com que os personagens fiquem perdidos dentro da composição que fora estabelecida para eles. Laura, que outrora era uma mulher decidida, embora insegura em relação aos seus relacionamentos, torna-se uma  espécie de manic pixie girl com defeito de fábrica, tipo uma Clementine — de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança — versão millenial, ao passo que Simon é colocado como o mocinho, bonzinho, encantador que está sempre a espera que sua amada o perceba. 

Isso escalona diante das divergências emocionais e românticas que há entre os protagonistas. Ele tem certeza que ela é a alma gêmea dele, mas para Laura só o que importa é o que a ciência atesta sobre seu par, mesmo que se sinta atraída pelo amigo. Assim, ambos abraçam a infelicidade e o vazio em busca de migalhas de um afeto que nasceu para ser amplo. Admito que a escolha me incomoda, porque esse é um dos tropos mais interessantes de se acompanhar, é uma pena que, por Simon e Laura caminharem em uma rota de autodestruição, essa amizade parece constantemente um barco prestes a afundar. Para quem esperava encontrar um friends-to-lovers na melhor vibe Harry e Sally, Chandler e Monica, Colin e Penelope; acaba se deparando com uma produção que é sobre como esse tipo de romance pode dar errado. 

Bridges e Goldstein evidenciam que quando você ama alguém tão diferente de si, dificilmente isso vai te levar a ser feliz ao lado dessa pessoa. O mais interessante, no entanto, é como a fotografia mostra isso. Se o romance e sua queima lenta é todo permeado por uma iluminação mais escura, a separação do casal possui as cenas mais iluminadas e claras da projeção. Enquanto o filme é todo soturno, é quando se permitem libertar-se que o sol domina a cena. Como um raio de compreensão que nem sempre você consegue ser por inteiro para alguém e quando consegue precisa estar aberto a compreender o quanto perderá de si mesmo no caminho. 

A sensação que ficou ao término de “Por Inteiro” é de um grande vazio. A dupla de roteiristas transforma um tropo tão gostoso de acompanhar em um drama sem raízes fortes que, quando tenta se potencializar, se perde na própria construção de seus personagens. Infelizmente, dessa vez a amizade e seguir o coração não foi o suficiente para transformar-se em uma história de amor memorável.

Autor

  • Pâmela Eurídice

    Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (2018), integrante do Coletivo Elviras de Mulheres na Crítica Cinematográfica. Participou de duas edições do Festival Internacional de Mulheres no Cinema (2018 e 2020), escreve para o Cine Set e produz conteúdo para internet.

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