Seguindo a recente onda de produções rodadas no Norte do Brasil, este Rio de Sangue tem alguns pontos em comum com a série Pssica da Netflix: a ambientação no Pará, a ênfase em ação e suspense, e vilões característicos da região – neste caso, garimpeiros ilegais.

De fato, o filme dirigido por Gustavo Bonafé – mesmo diretor de O Doutrinador (2018) – dá a impressão, no início, de que caímos no segundo episódio de uma série de streaming sem termos visto o primeiro: acompanhamos uma operação policial em São Paulo envolvendo a agente Patrícia Trindade (vivida por Giovanna Antonelli). Quando ela é jurada de morte pelo narcotráfico, a policial é ordenada pelos seus superiores a dar um sumiço, viajando até o Pará para encontrar a sua filha, uma médica (interpretada por Alice Wegmann) responsável por atender comunidades indígenas.

Tudo isso acontece nos primeiros minutos do filme. Faz sentido que as narrativas precisem ser rápidas hoje em dia, o espectador anda muito impaciente e tal… MasRio de Sangue sacrifica o envolvimento pela rapidez: com diálogos expositivos, nossa protagonista é mandada para Santarém em menos de dois minutos neste início muito apressado. Nem fazemos ideia direito de quem ela é e o filme já a joga numa nova circunstância.

Aliás, esse é o maior problema de Rio de Sangue: tudo acontece de forma ora apressada, ora muito esquemática. Os personagens são todos bem rasos: Giovanna faz a mulher durona; o problema de relacionamento da protagonista com a filha é também transmitido por meio de diálogo expositivo. O único personagem que ainda tem um pouco de conflito é o de Fidelis Baniwa, um indígena que se vê dividido entre sua comunidade e os bandidos. Aliás, o filme talvez ganhasse se explorasse um pouco mais esse personagem.

No entanto, mesmo ele recebe a tarefa ingrata de narrar seus pensamentos e sentimentos em voice overs totalmente desnecessários, e que no desfecho ainda se transformam em apelo em prol da natureza, sem ter nada a ver com a história que presenciamos antes.

Nos aspectos técnicos, Rio de Sangue também apresenta irregularidades: o filme tem um bom trabalho de fotografia de Cauê Zilli, obviamente explorando as paisagens amazônicas e evitando os estereótipos, ainda bem. Porém a trilha sonora é quase ininterrupta, a ponto de soar intrusiva em várias cenas. A montagem na perseguição do clímax é realmente precisa para criar um momento excitante, mas aí por alguma razão os cineastas resolveram incluir um “Wilhem scream” num momento da trilha sonora, o que cria um humor involuntário e nos tira do filme por instantes importantes – para quem não sabe, esse é um efeito sonoro de grito desesperado que já foi usado muitas vezes em filmes e é facilmente reconhecido, a ponto de já ter virado quase uma paródia. Rio de Sangue tenta ser uma experiência crua e realista, e por isso esse momento destoa.

No fim, o longa termina como uma obra frustrante: a Amazônia, com suas paisagens, desigualdades sociais e criminalidade, oferece grande potencial para cinema de ação e produções de gênero, e levar para as telas outras regiões do país além do Sudeste é uma iniciativa sempre elogiável. Mas quando vemos os bandidos capturando as heroínas nada menos que duas vezes no filme, e colocando-as para morrer em armadilhas ao invés de simplesmente baleá-las na cabeça, aí passa a ficar difícil levar a história a sério. O filme capricha na fotografia, mas se esquece de povoar esse mundo com personagens interessantes, e não consegue evitar problemas graves de roteiro. É um longa bonito e defendido com bravura pelos atores, mas é muito esforço para algo tão superficial.