Caio Pimenta analisa a força de “Hamnet”, novo filme de Chloé Zhao, após aclamação total no Festival de Telluride.
AS VIRTUDES DE ‘HAMNET’
Antes de falar das chances do filme no Oscar, importante saber sobre o que se trata “Hamnet”.
Baseado no best-seller de 2020 de Maggie O’Farrell, o drama mostra a tragédia que assola a vida do casal Agnes e William Shakespeare ao perder o filho de 11 anos de idade. Enquanto toda dor do luto se transforma para ele na inspiração para criar “Hamlet”, ela busca na natureza uma forma de encontrar o elo com o garoto.
“Hamnet” junta um timaço de grandes nomes do cinema mundial: os protagonistas são Jessie Buckley e Paul Mescal, a diretora é a Chloé Zhao, e os produtores são ‘apenas’ Sam Mendes e Steven Spielberg. Logo, era natural que o longa fosse um candidato natural na temporada de premiações, porém, a repercussão em Telluride o transformou em potencial favorito.
CATEGORIAS TÉCNICAS E ZHAO DUPLAMENTE
Mirando as categorias técnicas, o longa tem tudo para empilhar indicações: direção de fotografia, montagem, figurino, design de produção, trilha sonora são certas. Som e Maquiagem e Penteado são muito prováveis ainda que não dê para cravar. Somente não dá 100% porque não tem uma Canção Original e também ficará de fora de Efeitos Visuais. Logo, “Hamnet” já sai com 7 disputas de prêmio.
Isso, entretanto, é apenas o começo.
Nas categorias principais, Roteiro Adaptado caminha para ser uma barbada para a Chloé Zhao. “Uma Batalha Após a Outra” e “Bugonia” surgem como os principais rivais, mas, a força de “Hamnet” ao adaptar o livro de Maggie O’Farrell ecoando a obra-prima de Shakespeare é tentadora demais para a Academia não o escolher.
Vale lembrar que esta seria a segunda indicação da Chloé Zhao na categoria, mas, a primeira vitória: em 2021, ela foi derrotada pelo Florian Zeller de “Meu Pai”. Esta, porém, não seria a única estatueta com potencial para a chinesa no Oscar do ano que vem.
Uma segunda vitória em Melhor Direção é mais do que possível. Afinal, segundo a imprensa estrangeira, a Chloé Zhao encontra o elo emocional em “Hamnet” que faltava em “Nomadland” dentro do seu cinema introspectivo. Fora que seria uma premiação com cara de Oscar: em 2021, a chinesa ganhou a categoria em uma festa estranha no meio da pandemia.
Diferente de Roteiro Adaptado, aqui não será um caminho tão confortável para a Chloé Zhao: em Melhor Direção, ela terá pela frente Joachim Trier prestigiado com “Valor Sentimental”, Ryan Coogler de “Pecadores” com todo o simbolismo que sua vitória por representar e ainda Kathryn Bigelow, a pioneira mulher a vencer este Oscar com “House of Dynamite”. Acredito que teremos uma temporada bem mais complicada que a Zhao teve ao dominar por “Nomadland”.
Nas categorias de atuação, paira o mistério sobre o Paul Mescal: a ida para ator coadjuvante é tentadora, pois, duelaria com Stellan Skarsgård e Adam Sandler, ambos em busca da primeira indicação da carreira contra a segunda dele. O britânico levaria vantagem se, de fato, “Hamnet” se confirmar como grande favorito ao Oscar 2026 contra uma produção de língua não-inglesa e um comediante que enfrenta resistência em setores da Academia.
Para Melhor Ator, a situação é mais complicada: ali, Timothée Chalamet e Jeremy Allen White estão consolidados na dianteira desde o início da corrida. A briga dele seria por uma indicação em um espaço cheio de concorrentes como Brendan Fraser, Daniel Day-Lewis, Michael B. Jordan, Colin Farrell, George Clooney e Wagner Moura.
Acredito que a tendência seja mesmo ficar como coadjuvante. Se acontecer, o Paul Mescal praticamente elimina o sonho do garotinho Jacobi Jupe de aparecer no Oscar. Em Atriz Coadjuvante, a Emily Watson pode ser uma surpresa em uma categoria para lá de aberta.
Já a Jessie Buckley está confirmadíssima em Melhor Atriz. Ela chega com status de favorita até mesmo à frente da Renate Reinsve e Amanda Seyfried. No máximo, somente a Cynthia Erivo pode ser capaz de tirá-la deste posto. Mesmo assim, é dificílimo que isso ocorra, seja pela força do filme na temporada, pelo papel desafiador que dialoga com todos os públicos por ser uma dor que todos aqueles que têm filhos temem um dia sentir e pela própria trajetória na indústria. “Hamnet” seria a segunda indicação dela após aparecer no Oscar com “A Filha Perdida”.
É o caso de atriz discreta, por vezes, que passa despercebida, mas, que possui um respeito gigantesco dos seus pares por ser confiável e talentosa. Diante disso, seria natural ver “Hamnet” indicado também na categoria de Direção de Casting.
Uma produção que pode chegar ao recorde 14 indicações no melhor dos cenários é naturalmente favorita ao Oscar de Melhor Filme. Olhando para os adversários, não seria nenhum absurdo colocar o drama da Chloe Zhao neste status.
Se “Pecadores” sempre enfrenta a barreira de ser um filme de zumbis, subgênero estigmatizado por décadas, “Valor Sentimental” encara o desafio de superar as resistências às legendas dos votantes norte-americanos. “Marty Supreme” pode ser radical, fora da caixinha demais para a Academia, enquanto “House of Dynamite” tem menos perfil de ganhador do Oscar máximo tradicional do que “Hamnet”, um drama clássico.
A tendência é que “Hamnet” seja abraçado por diversas alas da Academia – produtores, diretores, atores, profissionais das áreas técnicas – e não enfrente maiores resistências dos votantes internacionais. Seria um filme de muitos mais consensos do que polêmicas.
AS PEDRAS NO CAMINHO
Dizer todas estas vantagens não significa, porém, que o caminho será fácil para a Chloé Zhao.
As batalhas começam dentro da Focus Features, distribuidora do filme nos EUA. Aclamado em Veneza, “Bugonia” pode bagunçar a campanha de Melhor Atriz, afinal, a Emma Stone está de olho na terceira estatueta e o Yorgos Lanthimos mira o prêmio de Melhor Diretor após bater na trave duas vezes.
“Anemone” também está com o estúdio, o que pode tornar a decisão do Paul Mescal em Ator Coadjuvante quase que natural. A não ser que ele queira competir na preferência com ‘apenas’ Daniel Day-Lewis. A prudência manda que não.
Que William Shakespeare é um gênio com obras admiradas até hoje ninguém discute. Isso, entretanto, não significa necessariamente que qualquer filme que o aborde ou o adapte necessariamente sairá vencedor do Oscar.
Até hoje, a única adaptação direta de Shakespeare a vencer Melhor Filme foi em 1949 com “Hamlet”, de Laurence Olivier. “Sonho de uma Noite de Verão”, “Júlio César” e “Romeu e Julieta” chegaram a concorrer na categoria máxima, mas, perderam. De forma mais indireta, é possível lembrar das duas versões de “Amor, Sublime Amor”. Com o dramaturgo de personagem, destaca-se “Shakespeare Apaixonado”, premiado na edição de 1999.
Por fim, vale um alerta que achei bem interessante feito no The Hollywood Reporter: a corrida ao Oscar não é um sprint de 100 metros, mas, sim uma longa maratona. Para você ter uma ideia, o prazo para a votação final dos vencedores será no dia 5 de março. Alcançar uma adoração como “Hamnet” fez em Telluride é ótimo por torná-lo um filme obrigatório da temporada, mas, ao mesmo tempo, joga muita pressão.
Se as expectativas não corresponderem, muitos votantes podem criar resistências ao filme, acabando com a empolgação inicial. Com isso, o superfavorito de hoje, se torna a decepção de amanhã.




















