A adaptação de Sentimental, de Cesc Gay, para O Convite passou por um intenso processo de transformação antes de chegar às telas. Em coletiva de imprensa mundial com a participação do Cine Set, os roteiristas Rashida Jones e Will McCormack revelaram que os ensaios tiveram papel decisivo na construção da história, incorporando experiências pessoais do elenco sem abrir mão da estrutura criada ao longo de um ano de desenvolvimento do roteiro.
Os roteiristas também destacaram a importância dos silêncios em um filme marcado por longos diálogos. Segundo Jones, as pausas foram pensadas desde o roteiro e ganharam ainda mais força na montagem, enquanto McCormack ressaltou que o talento do elenco permite que as reações comuniquem tanto quanto as falas. A dupla ainda revelou que a convivência em apartamentos de Nova York inspirou a curiosidade sobre a vida dos vizinhos, um dos motores da narrativa.
Outro diferencial de O Convite foi a decisão de Olivia Wilde de filmar a história em ordem cronológica, algo raro em Hollywood. Jones e McCormack afirmam que isso ajudou os atores a viverem a evolução emocional dos personagens de forma mais orgânica. Eles também explicaram que, independentemente do gênero — seja animação, documentário ou comédia romântica —, seus trabalhos sempre retornam aos mesmos temas: perda, vulnerabilidade e as experiências que aproximam as pessoas.
Cine Set – Na semana passada, nós conversamos com Olivia Wilde e ela disse que o roteiro foi se transformando ao longo dos ensaios e filmagens. Gostaria de saber quais foram as mudanças mais profundas e como foi para vocês se adaptarem a este processo.
Rashida Jones – Antes de tudo, tínhamos um excelente material de origem. O Cesc Gay escreveu uma peça e um filme maravilhosos. Assistimos a Sentimental (The People Upstairs) e gostamos muito. A história nos deu uma base muito rica, mas também mostrou caminhos que queríamos explorar, porque o filme original é muito ligado ao contexto espanhol, assim como imagino que as outras versões também reflitam suas próprias culturas.
Depois, tivemos a sorte de contar com um diretor e um elenco incríveis. Todos quiseram compartilhar experiências pessoais de seus relacionamentos, e isso é uma fonte de inspiração que nunca recusamos. Passamos uma semana reunindo essas ideias. Depois disso, eu e o Will voltamos ao trabalho de estruturar o roteiro: entender onde essas contribuições se encaixavam, se fortaleciam a história, se faziam sentido dentro do tema e se mantinham o ritmo do filme. Foi um presente contar com a participação dos atores, mas também um desafio fazer tudo funcionar dentro da estrutura que já existia.
Will McCormack – Como acontece com muitos filmes, este teve uma longa trajetória até acontecer. Passou por diferentes diretores e elencos antes de chegar à versão que fizemos, e acho que terminou no melhor lugar possível.
Quando a Penélope Cruz entra na sala de ensaio, você pensa: “A Penélope Cruz está aqui”. Então, é natural moldar o filme em torno de uma das maiores atrizes de todos os tempos. Todos os atores trouxeram suas particularidades, histórias pessoais e um talento extraordinário, e fomos ajustando os personagens para aproveitar tudo isso.
Ao mesmo tempo, o texto original do Cesc Gay era muito sólido. Trabalhamos no roteiro durante um ano antes mesmo dos ensaios, então já sabíamos exatamente como a estrutura precisava funcionar. Isso nos deu liberdade para incorporar as contribuições do elenco sem perder a essência da história.
Pergunta – Bons diálogos nem sempre dependem apenas do que é dito. Muitas vezes, o silêncio fala mais alto, e há um tipo de silêncio neste filme que parece quase mais eloquente do que as palavras. Esse silêncio já estava previsto no roteiro desde o início ou surgiu durante os ensaios e com a interpretação do elenco?
Rashida Jones – Ótima pergunta. Acho que a trajetória de cada personagem até chegar àquela noite sempre foi pensada como algo muito pessoal. Não exatamente silencioso, mas cada um vivendo seu próprio processo.
O final do filme, por exemplo, sempre foi concebido para ser silencioso. Quando ele toca piano, aquilo já é um diálogo por si só.
Ao mesmo tempo, muita coisa também nasce durante as filmagens e na montagem. Um diálogo só tem força quando existe um momento para o público absorvê-lo. E este é um filme em que se fala muito. Por isso, era importante criar pausas para que o espectador pudesse refletir sobre o que estava acontecendo e respirar um pouco. O início e o fim sempre foram pensados dessa forma, porque, entre eles, o público embarca em uma jornada muito intensa de conversas.
Will McCormack – Exatamente. Como há tantos diálogos, quando os personagens ficam em silêncio, esse silêncio ganha um peso enorme.
E isso também acontece porque o elenco é extraordinário. Basta observar as reações deles. Quando a câmera permanece em Edward ou na Penélope, por exemplo, eles estão dizendo muita coisa apenas ouvindo o outro. Mesmo sem falar, conseguem comunicar muito, e isso é mérito do enorme talento desses atores.
Pergunta – Quem já morou em um prédio sabe que poucas coisas são tão misteriosas quanto os vizinhos. Enquanto escreviam o roteiro, houve alguma experiência marcante com vizinhos que acabou influenciando a história?
Rashida Jones – Com certeza conversamos muito sobre isso. Nós dois moramos em Nova York por muitos anos, em apartamentos muito próximos uns dos outros, então você acaba sabendo muito mais sobre a vida dos vizinhos do que gostaria.
Eu morei com um ex-namorado em um daqueles lofts sem isolamento acústico. Era tão mal isolado que, quando alguém passava o aspirador no andar de cima, a poeira caía do teto. Eu acompanhei toda a história de um relacionamento apenas ouvindo o apartamento ao lado. Ouvi quando eles se mudaram, quando faziam sexo, quando brigavam, quando ele assistia pornografia enquanto ela estava no trabalho e, no fim, ouvi quando ele foi embora e vi o caminhão da mudança na frente do prédio. Informação demais. Talvez tenha sido bom para a escrita, mas foi informação demais.
Will McCormack – Existe um universo inteiro dentro de cada apartamento. Também tive vizinhos em Nova York sobre os quais nunca consegui entender direito quem era quem. Só ouvia os sons do apartamento ao lado, mas eles nunca me convidaram para entrar e eu nunca os conheci de verdade.
Acho que qualquer pessoa que já viveu em um prédio sabe que existe um universo paralelo ali dentro. Você fica imaginando por quem aquelas pessoas estão se apaixonando, se o relacionamento vai durar, quais são seus sonhos e expectativas. Cada apartamento é uma caixa de mistérios, e isso é fascinante.
Pergunta (Arthur Gadelha – O Povo) – Quanto da experiência de filmar na ordem cronológica dos eventos já estava presente no roteiro? Vocês também escreveram a história seguindo essa ordem?
Rashida Jones – Foi uma oportunidade incrível poder filmar em ordem cronológica. Isso quase nunca acontece na nossa indústria e faz uma enorme diferença para os atores.
Eles tinham um mapa muito claro da história, o que permitia se sentirem livres para explorar os personagens, como se qualquer coisa pudesse acontecer. Mas essa liberdade só existia porque havia um roteiro sólido e porque todos nós passamos uma semana trabalhando nele juntos antes das filmagens. Todo mundo se sentia parte do processo.
Além disso, o roteiro incorporava muitas experiências pessoais que compartilhamos naquela semana. Os atores conseguiam se reconhecer naquelas situações. Para nós, é um grande elogio quando alguém diz que não sabia para onde a cena estava indo ou que parecia haver improvisação, quando, na verdade, aquilo estava escrito. Isso significa que eles estavam completamente presentes naquele momento.
Will McCormack – Como venho do teatro, esse processo faz muito sentido para mim. No palco, você tem um começo, um meio e um fim. A apresentação é um fluxo contínuo de emoções, ações e pensamentos.
No cinema, normalmente é o contrário. As filmagens acontecem fora de ordem, e você precisa montar esse quebra-cabeça mentalmente o tempo todo. É quase um trabalho de detetive.
Por isso, o mérito é muito da Olivia e de toda a produção. Nesse filme, fazia toda a diferença seguir a ordem da história, permitindo que cada momento alimentasse naturalmente o seguinte. Acho que isso aparece claramente na tela.
Sinceramente, me surpreende que mais filmes não sejam feitos assim. Neste caso, também foi possível porque toda a produção acontecia no mesmo cenário, sem a necessidade de ficar mudando de locação.
Pergunta (Camila Henrique – Feito por Elas) – A filmografia de vocês como roteiristas passa por projetos muito diferentes. Rashida, você fez o documentário Quincy; juntos, vocês escreveram Toy Story 4 e Celeste and Jesse Forever. Existe um elemento em comum que guia a escolha desses projetos? E a forma de escrever muda de acordo com cada um deles?
Rashida Jones – O Will e eu somos amigos e hoje também parceiros de escrita e produção porque nos interessamos pelas mesmas coisas.
Somos um pouco obcecados pela forma como a vida pode ser dolorosa, mas também pelo quanto esse sofrimento pode ser engraçado e por como todos nós passamos por isso juntos. Existe algo muito bonito em rir dessas experiências coletivamente. Reconhecer que a dor faz parte da vida e, ainda assim, encontrar humor nela acaba nos aproximando.
Como roteirista, considero um privilégio explorar temas que são essenciais e universais. Seja a história de um pai com problemas de alcoolismo, como em Quincy, o luto dos pais em If Anything Happens I Love You, ou até a ansiedade de mandar um filho para a escola todos os dias nos Estados Unidos. O que buscamos é chegar ao centro dessas experiências de ansiedade, tristeza e sofrimento que todos compartilhamos e, quem sabe, fazer com que as pessoas se sintam um pouco menos sozinhas. É isso que tentamos fazer em tudo o que escrevemos, produzimos ou dirigimos.
Will McCormack – Nós não nos prendemos a um gênero específico. Pode ser uma comédia romântica, um documentário, uma animação… Isso realmente não importa.
O ponto em comum é exatamente o que a Rashida mencionou: a perda e o coração partido. São momentos difíceis, mas também costumam ser aqueles em que nos tornamos mais humanos.
Quando atravessamos esse tipo de experiência, percebemos que não estamos sozinhos. Independentemente de quem você seja ou de onde venha, em algum momento vai lidar com perdas e decepções. E, paradoxalmente, é isso que nos conecta. É um tema ao qual sempre acabamos voltando quando escrevemos.
















