De “Frankenstein” a “Hamnet”, Caio Pimenta traz a última parte das previsões iniciais para o Oscar 2026 de Melhor Filme.

VAGAS MUITO PRÓXIMAS

Começo falando da turma que vejo muito próxima das vagas de Melhor Filme. E os dois são da Netflix. 

“Frankenstein” e “Jay Kelly” tiveram passagens opostas no Festival de Veneza, onde ambos concorriam ao Leão de Ouro. A fantasia do Guillermo del Toro recebeu aplausos entusiasmados e muitos elogios da crítica, enquanto a dramédia do Noah Baumbach teve recepção morna. Nos festivais na América do Norte, porém, o filme se recuperou. 

A superprodução do Del Toro deve chegar forte com potencial de ser um dos líderes de indicações, especialmente, nas áreas técnicas. O ponto fraco, talvez, seja nas categorias principais em que, no máximo, terá chances de chegar com Roteiro Adaptado e Direção.  

Ainda assim, o mexicano é um nome querido na Academia e se conseguiu espaço por “O Beco do Pesadelo” pode aparecer novamente sem maiores dificuldades. 

 

“Jay Kelly” traz um combo fortíssimo com Noah Baumbach, George Clooney e Adam Sandler. O comediante, aliás, é um candidato sério ao prêmio de Ator Coadjuvante, ainda é praticamente certo em Roteiro Original e pode chegar em Direção de Casting.  

Tudo isso deixaria “Jay Kelly” em posição muito favorável para estar entre os finalistas de Melhor Filme. A grande questão é saber se a Academia estará disposta a emplacar duas produções da Netflix. Não seria uma novidade, pois, aconteceu em 2020, 2021 e 2022, mas, estamos em uma temporada altamente competitiva.  

Nesta conta, temos ainda “Casa de Dinamite”, da Kathryn Bigelow, e “Train Dreams” buscando uma vaga também. Será uma briga pesada interna dentro do streaming que pode deixar um dos favoritos pelo caminho. 

VAGA GARANTIDA

Chegou o momento de falar dos candidatos garantidos em Melhor Filme. O primeiro deles vem da A24. 

“Marty Supreme” adotou uma estratégia arriscada ao saltar todos os festivais do segundo semestre para focar direto no lançamento previsto para o dia de Natal. Caso confirme tudo o que se espera, a produção pode alterar os rumos da temporada, especialmente, em Melhor Ator com o Timothée Chalamet chegando como favorito na categoria. 

E ainda tem o Josh Safdie em Direção, Gwyneth Paltrow em Atriz Coadjuvante, Roteiro Original e Direção de Casting, fora as categorias técnicas. Acredito realmente que o longa pode ser capaz de provocar uma grande reviravolta no fim do ano. 

FAVORITOS À VITÓRIA

Mais do que garantidos, os próximos quatro filmes são candidatos sérios para saírem vencedores de Melhor Filme. 

Dos favoritos a Melhor Filme, “Pecadores” será aquele com a maior bilheteria, representando o tão importante elo com o público buscado pela Academia. Traz a questão racial trabalhando a história e cultura negra norte-americana como temática central abordada de forma instigante para dentro do cinema de gênero – no caso, os filmes de terror com vampiros.  

Vale lembrar como o cinema de gênero conquistou espaço nas últimas temporadas do Oscar com os grandes desempenhos de “A Substância”, “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” e “Duna”. Eu prevejo “Pecadores” se saindo muito bem nos prêmios da crítica, no SAG e com grandes possibilidades no PGA, pelo menos. 

A grande questão é se a Academia será tão descontruída assim para premiar um filme de terror de vampiros. Aqui, a situação remete muito a 2016: naquela temporada, “Mad Max” vinha consagrado por público e crítica, mas, na hora decisiva, perdeu para o tradicionalismo de “Spotlight”. Claro que a Academia mudou significativamente nos últimos anos, porém, ainda duvido que tenha sido uma alteração tão radical assim. 

“Valor Sentimental” está na terceira posição desta corrida para Melhor Filme. A produção norueguesa é a franca favorita na corrida internacional e deve gabaritar na maioria das categorias principais – Roteiro Original, Atriz, Ator Coadjuvante, Direção e Direção de Casting estão asseguradas. Ainda há uma possibilidade de dupla indicação em Atriz Coadjuvante. 

 O drama teve passagem unânime em Cannes e ficou em segundo na preferência do público em Toronto. Mesmo na concorrência pesada na Neon, “Valor Sentimental” está na dianteira da preferência do estúdio e ainda conta com um elenco para lá de conhecido de Hollywood, diferente do que outros candidatos internacionais tiveram em Melhor Filme, incluindo, “Parasita”. 

 A produção do Joachim Trier se beneficia também em abordar o mundo do cinema aliado a um drama familiar, combinações que a Academia ama. E “Valor Sentimental” ainda pode se beneficiar do grande ano internacional com a possibilidade de três indicados a Melhor Filme. Uma possível vitória simbolizaria este processo. 

A questão é que 2025 também está sendo um grande ano do cinema americano com produções das mais diversas sendo extremamente elogiadas pela crítica e com sucesso de público. Será que Hollywood toparia abrir mão disso para consagrar uma obra internacional em tão curto período?  Com isso, barreiras como as legendas são justificativas perfeitas para este cenário. 

A segunda posição está com “Uma Batalha Após a Outra”. Toda a desconfiança em relação ao filme da Warner se dissipou com a aclamação da crítica. A superprodução pode se beneficiar do clamor de que chegou a hora de consagrar Paul Thomas Anderson, um dos maiores diretores norte-americanos da atualidade ainda sem Oscar. Sem dúvida, esta será uma das narrativas da temporada e, caso a conquista venha em Roteiro Adaptado ou Direção, o longa fatalmente estará no páreo de Melhor Filme.  

“Uma Batalha Após a Outra”, porém, ganhou outros nomes fortes: se Leonardo DiCaprio já era previsível como um candidato pesado em Melhor Ator, Sean Penn em Ator Coadjuvante e a dupla Chase Infiniti e Teyana Taylor em Atriz Coadjuvante surpreenderam. Entram em busca das vitórias nas respectivas categorias. 

O mistério é saber sobre a bilheteria de “Uma Batalha Após a Outra”: com um custo estimado de até US$ 175 milhões, haverá dificuldades para o filme do Paul Thomas Anderson se pagar. Se conseguir passar longe do fracasso que se previu tempos atrás, considero que isso não será empecilho. Por outro lado, se a Warner tiver uma senhora conta em vermelho para fechar, talvez fique complicado a Academia justificar um resultado que vai na contramão do sucesso popular, por exemplo, de “Pecadores”.   

Ainda assim, o combo Paul Thomas Anderson em busca do sonhado primeiro Oscar e Leonardo DiCaprio é muito sedutor para a Academia ignorar. Não à toa que Christopher Nolan, Martin Scorsese, Rian Johnson e tantos e tantos grandes nomes da indústria demonstram apoio publicamente a “Uma Batalha Após a Outra”. A onda vem forte! 

Mas, ainda tem um candidato que eu considero o grande favorito ao Oscar 2026 de Melhor Filme. 

“Hamnet” é um fenômeno dos festivais do segundo semestre. Telluride se desfez em lágrimas e aplausos para o drama da Chloé Zhao. Em Toronto, conquistou o prêmio do público, mesma honraria obtida por Carruagens de Fogo, Beleza Americana, Quem Quer Ser um Milionário?, O Discurso do Rei, 12 Anos de Escravidão, Green Book e Nomadland. A crítica considera o drama um espetáculo. 

Não há muitas dúvidas de que Jessie Buckley chega como favorita a Melhor Atriz, Chloé Zhao será um dos nomes fortes em Melhor Direção, Paul Mescal, pelo menos, a indicação terá em Ator Coadjuvante e Roteiro Adaptado tem tudo para vencer. Deve conseguir, no mínimo, 12 indicações ao Oscar 2026, o que o tornaria um dos líderes da temporada.  

A produção é tão forte que escanteou sem maiores dificuldades “Bugonia” dentro da Focus Features, incluindo, a Emma Stone que foi bastante aclamada em Veneza. De todos os quatro favoritos, “Hamnet” é aquele com mais estrutura clássica, tradicional para os padrões da Academia, além de trazer William Shakespeare e o clássico “Hamlet” para o centro da trama, olhando, porém, para uma ótica mais feminina. 

O grande desafio é se manter como favorito caso se confirme neste posto tão cedo. Afinal, “Hamnet” seria o alvo das campanhas rivais. Uma narrativa contra o filme, por exemplo, poderia ser o fato de que seria muito cedo para consagrar novamente a Chloé Zhao após a vitória dela com “Nomadland” cinco anos atrás, enquanto o Paul Thomas Anderson permaneceria no zero. Já “Pecadores” poderia apostar em debater a atualidade do tema, visto que a produção do Ryan Coogler aborda o racismo e a cultura negra norte-americana. 

Ainda assim, a universalidade do amor maternal é forte demais para diminuir “Hamnet” neste sentido. Se repetir o que aconteceu em Telluride e Toronto quando chegar ao redor do planeta, o drama da Chloé Zhao pode ser imparável.