De Cliff Booth a Dia D, Caio Pimenta traz os candidatos fora do jogo e com poucas chances na disputa do Oscar 2027 de Melhor Filme.

SEM CHANCES

Nomes gigantes do cinema mundial abrem a lista da turma que não terá chances no Oscar deste ano. 

O retorno de Steven Spielberg às ficções científicas dividiu opiniões. “Dia D” até foi elogiado pelo clima de paranoia, investigação jornalística e com uma excelente Emily Blunt, mas, ainda assim passou longe de ser unanimidade. A produção deve manter a tendência dos longas de fantasia do cineasta ficarem longe de Melhor Filme; a última vez aconteceu nos anos 1980 com “E.T – O Extraterrestre“. 

Pedro Almodóvar também não tem chances de chegar a Melhor Filme. “Natal Amargo” passou por Cannes sem deixar saudades. Na seletiva espanhola, sequer ficou entre os semifinalistas, sendo engolido pelo hit de “A Bola Negra“. Na minha visão, um dos filmes mais injustiçados de 2026. 

“O Diabo Veste Prada 2” movimentou os cinemas no primeiro semestre, animou os fãs, arrancou elogios da crítica, mas claramente não passou da empolgação inicial. Mesmo reunindo Meryl Streep, Anne Hathaway e Emily Blunt novamente, a comédia parece ter sido esquecida com o tempo. Não vejo nem mesmo capacidade de chegar ao Globo de Ouro em Comédia/Musical, logo, imaginar Oscar parece uma loucura. 

Falando de grandes sucessos, “Backrooms” foi um fenômeno nas bilheterias com uma impressionante arrecadação de quase US$ 400 milhões ao redor do planeta. Ainda assim e mesmo com as presenças de Renate Reinsve e Chiwetel Ejiofor, dois atores indicados ao Oscar, a Academia deve passar longe do terror, pelo menos em Melhor Filme. Até porque há um outro gigantesco hit do gênero pedindo passagem. 

Pena mesmo será ver a esnobada que “Acampamento Miasma” deve sofrer nesta temporada. O excelente slasher Jane Schoenbrun, sucesso em Cannes, pode até brincar com o mundo do cinema e trazer duas excelentes atuações de Gillian Anderson e Hannan Eibender que não será suficiente para alguma possibilidade de terminar entre os dez finalistas. Para piorar, a MUBI deve priorizar produções internacionais como “Rose” e “A Terra do Meu Pai” em vez de “Miasma“. 

Já “Misty Green” foi lançado em Toronto sem despertar grande entusiasmo. Rosalind Eleazar, como previsto, conseguiu ser bastante elogiado, mas não o suficiente para impulsionar o longa do Chris Rock. 

Situação semelhante a “Prima Facie“: a adaptação do sucesso teatral não obteve mesmo êxito. A Indiewire, por exemplo, classificou o drama como confuso e decepcionante, enquanto o The Guardian considera que o filme passa longe do impacto do material original. Apesar da Cynthia Erivo elogiada, parece muito pouco para uma recuperação. O meu grande temor de que seria uma obra amarrada demais para conseguir ganhar vida própria nas telas pode ter dado as caras no filme. 

“Coward” fecha o time dos candidatos sem chances de serem indicados a Melhor Filme. O drama do Lukas Dhont, exaltado por “Close”, até saiu de Cannes com o prêmio de Melhor Ator para a dupla Emmanuel Macchia e Valentin Campagne, mas, a sensação é que está sendo engolido por vários outros candidatos internacionais. Hoje, a luta está mais para emplacar na shortlist de Melhor Filme Internacional do que qualquer outra possibilidade maior. 

CHANCES MÍNIMAS

Passando para a turma dos candidatos com poucas chances de aparecerem em Melhor Filme, um pelotão grande de produções internacionais precisa fazer mais para subir na escadinha de favoritos aos 10 finalistas. 

Sandra Huller pode até ser um dos maiores nomes da temporada com a possibilidade, inclusive, de dupla indicação seja em atriz principal ou coadjuvante, mas isso não significa garantia dos filmes irem tão longe assim. “Rose” e “A Terra do Meu Pai” correm muito por fora neste momento. Entre as duas produções, a maior chance reside no longa do Paweł Pawlikowski até pela trajetória surpreendente de “Guerra Fria” em 2019: o drama polonês chegou a Direção e Direção de Fotografia. A vitória de Melhor Direção em Cannes até ajuda, mas não me parece o perfil de filme para avançar em uma temporada bastante disputada. 

Após muita controvérsia e polêmica, “Minotauro” conseguiu a vaga francesa para o Oscar 2027. Também distribuído pela MUBI, a produção pode jogar com o fato de ser uma obra crítica ao regime de Vladimir Putin e do diretor russo mais relevante da atualidade. Caso acerte na campanha, vejo espaço para crescer, apostando inclusive em uma possível queda de “Fjord” e “All of Sudden” como a segunda opção internacional para chegar a Melhor Filme. 

“Naza” também aparece com chances mínimas para a categoria máxima do Oscar 2027. Ganhador do prêmio especial do júri do Festival de Veneza, o documentário joga luz sobre o massacre cometido pelo exército israelense na Faixa de Gaza. O grande problema para o longa é driblar o lobby e a influência judaica e de Israel na indústria, especialmente, em Hollywood. Da mesma forma que terá muitos apoiadores, também enfrentará muita resistência. Para complicar, há um outro documentário mais forte para fazer história nesta temporada e chegar a Melhor Filme. 

Se “The Liberation” e “The Only Living Pickpocket in New York” parecem filmes muito pequenos para seus protagonistas, respectivamente, Carrie Coon e John Turturro empurrarem para tão longe, “I Swear” terá dificuldades de refazer uma campanha que poderia ter dado certo na última temporada. O drama pode até ter a relevância de dar holofote sobre a Síndrome de Tourette e contar com uma atuação estupenda do Robert Aramayo, mas a sensação de que o timing passou é maior. 

“Tender Loving Care” marca a despedida do Mike Leigh dos cinemas. O diretor britânico soma sete indicações na Academia sem nunca ter vencido. Ainda assim, conseguiu presenças consideradas inesperadas como nos roteiros de “Topsy-Turvy: O Espetáculo”, “Simplesmente Feliz” e “Um Ano Mais”, além da Direção de “O Segredo de Vera Drake“. Melhor Filme apenas com Segredos e Mentiras.  

Os elogios ao novo filme animam, mas salvo alguma mudança drástica vejo “Tender Loving Care” repetindo “Hard Truths“. O drama de 2024 parecia que ia longe, temíamos Marianne Jean-Baptiste ficar com a vaga de Fernanda Torres e quem ficou pelo caminho foi o britânico. 

“Razão e Sensibilidade” também faz parte do time britânico. A nova adaptação do clássico da Jane Austen joga mirando um bom desempenho nas áreas técnicas para impulsionar o filme. O problema será o fantasma da versão do Ang Lee, indicada na disputa máxima e vencedora de Melhor Roteiro Adaptado. Se a obra já foi prestigiada há três décadas, por que repetir em 2027? 

“Paper Tiger” deve manter a sina do James Gray, diretor amado da cinefilia e crítica, mas longe de cair nas graças da Academia. Até hoje, “Ad Astra” em Melhor Som foi a única produção dele indicada ao Oscar. A passagem tímida por Cannes e a concorrência pesada de “Fjord” e “All of Sudden” na Neon dificultam a vida do drama liderado por Scarlett Johansson e Adam Driver. Corre muito por fora. 

“Josephine” e “Hope” são duas produções que acredito terem potencial de subir ao longo da temporada de premiações. Premiado em Sundance, o drama da brasileira Beth de Araújo traz aquela carinha de filme independente, de baixo custo feito nos EUA. 

Como vimos com “Sonhos de Trem” e “Nickel Boys” nas últimas temporadas, produções do tipo sempre encontram espaço até para mostrar um tipo de filme que a Academia gosta de prestigiar até como forma de incentivo para que longas como esse continuem sendo realizados. Em uma edição com grande potencial de termos muitos blockbusters, “Josephine” poderia ser um contraponto importante no Oscar. O grande adversário será conseguir se projetar a partir da pequena distribuidora Summerian Pictures. 

Já “Hope” entra na lista das superproduções, dos filmes de ação e ficção científica que devem dominar a temporada. A diferença é conseguir misturar Oriente e Ocidente de forma tão interessante. Por onde passa, o longa do Na Hong-jin chama a atenção do público e crítica, igual ocorreu em Cannes e San Sebástian. O lançamento comercial pode fazê-lo explodir em repercussão e provocar uma onda favorável. 

Como pode a continuação de “A Rede Social” não estar tão cotada para o Oscar 2027 pela imprensa dos EUA? Chama a atenção como mesmo reunindo Aaron Sorkin, Mikey Madison e Jeremy Strong e sendo a principal aposta da Sony Pictures/Columbia, “O Outro Lado das Redes” não empolga. Corre por fora e a tendência, até o momento, é que se torne um dos fiascos do ano. 

“Cliff Booth” fecha o time dos candidatos com poucas chances. Igual “O Outro Lado das Redes“, o prequel sobre o premiado personagem de Brad Pitt em “Era uma vez em Hollywood” também não avança na temporada. Mesmo com David Fincher na direção e Quentin Tarantino no roteiro, pouco se houve falar do filme ser colocado como prioridade na Netflix.  

Com as forças de “A Bola Negra“, “Amor Possível” e “Ink“, a tendência é que “Cliff Booth” fique mais para um lançamento especial do streaming de fim de ano do que conseguir algo a mais no Oscar 2027.