Caio Pimenta analisa do pior ao melhor ganhador das categorias de Animação e Filme Internacional no Oscar nos anos 2020.

MELHOR ANIMAÇÃO

7. TOY STORY 4

Melhor Animação teve apenas três vencedores realmente empolgantes.

“Toy Story 4” mexeu no sagrado ao esticar uma história que foi finalizada com chave de ouro no terceiro filme. Nem chega a ser um filme ruim, mas se mostra incapaz de adicionar algo novo ao universo de Woody e Buzz. É, facilmente, o pior ganhador da categoria.

6. ENCANTO

“Encanto” é aquela animação da Disney competente, com visual incrível e boas canções — quem esquece “We Don’t Talk About Bruno”? — e ainda traz o universo latino como pano de fundo. Apesar de tudo isso, passa longe de ser um filme marcante, especialmente em comparação com os clássicos do estúdio.

5. GUERREIRAS DO K-POP

O quinto lugar fica com “Guerreiras do K-Pop”. Falei bastante sobre as razões da vitória no Oscar deste ano em um vídeo aqui do canal. Na comparação com os dois anteriores, vejo a animação disponível na Netflix com um pouco mais de personalidade e criatividade. Não é brilhante, mas entrega muito bem o que promete.

4. PINÓQUIO

Não considero “Pinóquio” essa obra-prima que foi alardeada quando estreou na Netflix. Ainda assim, a animação mostra novamente a habilidade de Guillermo del Toro em adaptar fábulas com muita emoção, sem poupar o público infantil das durezas da vida. Consegue ser emocionante, triste e ainda deixar uma mensagem positiva para todas as idades. Belo filme.

3. O MENINO E A GARÇA

Subindo o nível significativamente, “O Menino e a Garça” fica com a medalha de bronze. Pode até não ser o melhor filme de Hayao Miyazaki, mas traz novamente uma bela história simbólica e fantástica de um garoto lidando com a dura perda da mãe e a descoberta de um novo mundo.

2. FLOW

“Flow” teve a vitória mais espetacular da categoria ao superar “Robô Selvagem” e “Divertida Mente 2”, dois gigantes dos EUA — e não foi por acaso. A história de sobrevivência do gatinho em meio a um mundo submerso impressiona pela forma como dosa momentos de ação com outros mais contemplativos. Soma-se a isso a tecnologia não apenas para criar a Terra tomada pelo oceano, mas também para construir um protagonista tão fascinante. E sem os milhões da Disney ou da DreamWorks.

1. SOUL

O primeiro lugar fica com “Soul”: o derradeiro suspiro de criatividade da Pixar traz o abstrato de “Divertida Mente” para uma história metafísica de conceito potencialmente complexo, mas que a genialidade de Pete Docter e Kemp Powers torna acessível. Considero o único dos vencedores que poderia ter vingado sem maiores dificuldades em Melhor Filme, ainda mais se levarmos em conta a fraca temporada do Oscar 2021.

MELHOR FILME INTERNACIONAL

Já a lista de ganhadores de Melhor Filme Internacional está em altíssimo nível. Tirando os dois últimos colocados, ela supera os vencedores de Melhor Filme.

7. NADA DE NOVO NO FRONT

O pior ganhador da categoria foi justamente aquele que teve mais chances de vencer Melhor Filme. O alemão “Nada de Novo no Front” segue a cartilha dos filmes de guerra contemporâneos, investindo tudo na parte técnica para reproduzir os horrores do conflito em som e imagem, mas deixando de lado debates políticos, econômicos e sociais. A situação se complica quando lembramos do clássico de Lewis Milestone, vencedor do Oscar nos anos 1930, baseado no mesmo livro.

6. DRUK

O dinamarquês “Druk” fica na sexta posição. Thomas Vinterberg poderia ter adotado uma linha bem-comportada, com o discurso de que a bebida faz mal; sorte a nossa que faz justamente o contrário, ao sugerir que alguns goles nem sempre são uma má ideia. Com uma atuação excelente de Mads Mikkelsen e um final apoteótico, é um longa bastante divertido. Assim como “Soul”, “Druk” tinha totais condições de figurar entre os indicados a Melhor Filme no Oscar 2021. Em uma lista com apenas oito finalistas, não veria problema algum em incluir os dois.

5. ZONA DE INTERESSE

“Zona de Interesse” é um ousado drama de guerra de Jonathan Glazer. A proposta de acompanhar a rotina de uma família nazista ao lado do horror de Auschwitz, como se fosse um cotidiano comum, assusta pela banalização da tragédia. A experiência se completa com o tom gélido da fotografia e o som imersivo, que amplificam esse cenário perturbador. É verdade, porém, que “Zona de Interesse” se beneficiou do erro da França ao não selecionar “Anatomia de uma Queda”. Caso o filme de Justine Triet estivesse na disputa, dificilmente teria perdido — e esta lista seria bem diferente.

4. AINDA ESTOU AQUI

O quarto lugar é do nosso “Ainda Estou Aqui”. O drama brasileiro tem como grandes méritos a atuação de Fernanda Torres e a construção — e posterior desconstrução — do ambiente familiar na primeira parte. Adotando uma linha narrativa mais clássica, Walter Salles conduz a trama de forma sóbria, mas muito emotiva. É impossível não se envolver.

Para os padrões da Academia, “Ainda Estou Aqui” é uma obra mais fácil de gerar consenso do que “O Agente Secreto”. Claro que a queda de “Emilia Pérez” foi decisiva para a vitória brasileira, mas, ainda assim, o filme de Walter Salles soube aproveitar o vácuo e foi além do esperado. A histórica indicação a Melhor Filme comprova isso.

3. VALOR SENTIMENTAL

“Valor Sentimental” é um drama brilhantemente conduzido por Joachim Trier. Impressiona a capacidade do filme norueguês de expandir um drama familiar com a arte como pano de fundo, construindo personagens extremamente complexos. O elenco, liderado por Renate Reinsve e Stellan Skarsgard, completa o trabalho.

2. PARASITA

A medalha de prata fica com “Parasita”. Bong Joon-ho mistura suspense e ironia para denunciar as desigualdades sociais dentro de uma mesma casa. A cada reviravolta, o público se vê mais envolvido com aqueles personagens, o que se alia a um rigor técnico impressionante.

“Parasita” chegou na hora certa para aproveitar o momento e se tornar o primeiro longa de língua não inglesa a vencer Melhor Filme. E que bom que isso aconteceu com uma obra tão singular, universal e brilhante.

1. DRIVE MY CAR

O grande vencedor de Filme Internacional, porém, é “Drive My Car”. O diretor Ryusuke Hamaguchi já era um dos maiores nomes do cinema mundial, mas aqui atinge outro patamar. Um drama de três horas, falado em diversos idiomas — muitas vezes dentro da mesma cena —, em uma narrativa que revela constantemente novas camadas.

Ouso dizer, inclusive, que “Drive My Car” é meu indicado a Melhor Filme favorito da década. Uma obra-prima tão indiscutível que, mesmo fora dos padrões da Academia, foi extremamente longe na premiação.