De “Megalópolis”, de Francis Ford Coppola, a “Motel Destino”, de Karim Ainouz, Caio Pimenta apresenta a segunda parte dos candidatos à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2024.

IRÃ, CHINA E ÍNDIA

Para turma que não gosta de ver política misturada com cinema, o Festival de Cannes mostra que os assuntos são indissociáveis com “A Semente do Figo Sagrado”. A história mostra um juiz de Teerã paranóico a ponto de tomar medidas drásticas contra a própria esposa e filha após o sumiço da arma dele.  

O filme é dirigido pelo Mohammad Rasoulof, cineasta condenado na semana passada há oito anos de prisão no Irã por crimes contra a segurança nacional. Os tais ‘crimes’ são os longas de ficção e documentários dele. Vale lembrar que ele venceu o Urso de Ouro do Festival de Berlim em 2020 por “Não Há Mal Algum”. Três anos antes, o iraniano vencera a mostra Um Certo Olhar em Cannes com “Lerd”. 

Pela sexta vez na corrida pela Palma de Ouro, o Jia Zhangke aparece com “Caught by the Tides”. O filme é uma história de amor melancólica entre um casal que aproveita tudo durante um período da vida. Até o dia em que ele vai embora sem deixar notícias para buscar a sorte em uma cidade maior. Ela, então, decide partir para reencontrá-lo. 

Já a Índia retorna à disputa da Palma de Ouro após 30 anos com “All We Imagine as Light”. Com direção da Payal Kapadia, a história acompanha duas mulheres: uma é enfermeira que vê a vida abalada após receber um presente do ex-marido, enquanto a outra tenta em vão encontrar um lugar em Mumbai para ficar em paz com o namorado. As duas, então, decidem ir para uma região litorânea, onde, finalmente, poderão expressar suas vontades. 

BAKER, ABBASI, ARNOLD

Hora das produções faladas em inglês: começo os trabalhos com “Anora”, novo filme do Sean Baker, diretor de “Projeto Flórida”. O filme é um conto de fadas peculiar: a protagonista é uma profissional do sexo no Brooklyn que se casa impulsivamente com um filho de um ricaço. A situação se complica quando os pais do rapaz, na Rússia, descobrem e partem para Nova York para tentar anular o casamento. Espera-se que o Baker se saia melhor desta vez do que em 2021 quando “Red Rocket” passou sem empolgar muito em Cannes. 

Conhecido por “Border” e “Holy Spider”, o diretor iraniano Ali Abbasi estreia em filmes língua  inglesa com “O Aprendiz”. A produção é uma das mais esperadas em Cannes porque, além do elenco de estrelas – Sebastian Stan, Jeremy Strong, Maria Bakalova -, traz como Donald Trump como personagem central ao mostrar a ascensão dele nos negócios em Nova York durante as décadas de 1970 e 1980. É a grande incógnita do festival: quanto da antipatia contra o ex-presidente e atual candidato republicano à Casa Branca pode pesar? 

Já Andrea Arnold será homenageada em Cannes pela Quinzena dos Realizadores e pode aproveitar o ensejo para chegar forte na corrida pela Palma de Ouro com “Bird”. A produção traz o Barry Keoghan e o Franz Rogowski no elenco. O drama acompanha a história de crescimento de um garoto vivendo com o pai e o irmão em uma região pobre. 

Adquirido pela MUBI, “The Substance” marca a estreia da diretora Coraline Fargeat. A ficção científica é cercada de mistério, mas, o que se sabe é que aborda a questão da pessoa ter direito a uma melhor versão de si disponível a partir de um produto. O dilema é o tempo: uma semana para você, outra semana para sua versão melhorada. Demi Moore, Dennis Quaid e Margaret Qualley. Carinha de ser aquele ame-o ou deixe-o de Cannes 2024. 

OS VETERANOS e O BRASIL

O David Cronenberg tenta a vitória da Palma de Ouro pela sétima vez com “The Shrouds”. O Vincent Cassel interpreta um empresário inovador e viúvo enlutado que constrói um dispositivo para se conectar com os mortos. Em um júri presidido pela Greta Gerwig, a estranheza do diretor pode encontrar, finalmente, a consagração em Cannes.  

Falando em diretores ousados, o Paul Schrader está novamente no festival com “Oh Canada”. Este é o retorno dele à Palma de Ouro após 35 anos – a última vez foi com “O Sequestro de Patty Hearst”. Desta vez, o roteirista de “Táxi Driver” retorna à temática do Vietnã para contar a história de um dos 60 mil desertores que saíram dos EUA para o país vizinho com o intuito de não participar da guerra nos anos 1960 e 1970. Jacob Elordi, Uma Thurman e Richard Gere estão no elenco. 

Nenhum filme do festival, entretanto, é mais esperado do que “Megalópolis”. O ambicioso projeto do Francis Ford Coppola finalmente ganha as telas com o Adam Driver de protagonista. O maestro da trilogia “O Poderoso Chefão”, aliás, retorna para a disputa da Palma de Ouro após quatro décadas e meia: a última vez foi quando ganhou pelo clássico “Apocalypse Now”, em 1979. 

Por fim, é claro, “Motel Destino”: o Brasil volta a disputar a Palma de Ouro após a presença de “Bacurau”, em 2019 – isso para não falar da co-produção com a Itália de “O Traidor”. O drama marca a segunda vez do Karim Ainouz na corrida pelo prêmio máximo de Cannes visto que ele participou com “Firebrand” no ano passado. A esperança é que o cineasta cearense consiga maior brilho com o thriller erótico. 

Cannes gosta demais do Karim: “Madame Satã” e “O Abismo Prateado” foram lançados lá, “A Vida Invisível” ganhou a Mostra Um Certo Olhar e, como já dito, tivemos “Firebrand” no ano passado. A concorrência, claro, é pesada, mas, vejo “Motel Destino” com potencial para sonhar grande.