Enfermeira e ceifadora, a personagem título de Ivo expressa pela atriz Minna Wündrich tudo o que o filme é. A morte como elemento constante e sem cerimônia. A inevitabilidade da vida tratada com leveza mas não tanto. Com seriedade mas não tanto. Com um humor que não cai na piada mas também com uma dramaticidade que não cai no apelativo.

Tudo em um filme que é meio colcha de retalho das vidas se acabando por onde ela passa e meio um processo de aceitar a melhor amiga passando pela mesma coisa. 

O caminho pra cair em um existencialismo é bem curto. E logo dá pra começar a pensar no que é uma personagem que é enfermeira. Que cuida de doentes. Mas que ao mesmo tempo é especializada em um processo de facilitar a morte. De encaminhar os pacientes para uma fuga incólume desse sofrimento. Ou mesmo de acelerar o destino. Enquanto, na tela, tudo é muito mais distante do que isso. Muito menos filosófico. 

Porque Eva Trobisch faz por um naturalismo um filme que é sobre rotina do que sobre quaisquer discussões. Os grandes temas então. A vida, a morte, a depressão, a doença, o sofrimento, a eutanásia. Vão demarcando o subtexto de tudo. Como rastros que ficam lá e cá. Tanto na presença constante deles nesse dia a  dia quanto nos seus atos. No seu trabalho. Os remédios aos montes. Os processos de movimentar e facilitar os processos mínimos de sobrevivência dessas pessoas.

E nesse meio, o melodrama que se faz a partir da relação dela com a amiga, dela com o marido da amiga, do marido da amiga com a amiga, é quase algo descolado dessa cosmologia do filme mas que no fim das contas é o que dá muito do peso dramático. Que impede que tudo seja muito frio e distanciado. Que nos lembra e que lembra a Ivo também, que por mais que ela rejeite sua humanidade para poder fazer o que faz, ela continua sendo humana.

Coisa que se faz nas cenas de choque e de relação entre ela e os outros mas que é fortalecida nos momentos de contemplação. Da contemplação ativa das atividades laborais dela, mas também da contemplação passiva de momentos solitários como as infindáveis cenas dela dirigindo. Se deixando levar pelas estradas. Flertando ela mesma por vezes com a própria possibilidade de morrer. 

Nessa lógica, com pequenos movimentos o longa constrói seu drama. Como a presença de uma arma de caça que desencadeia um desabamento emocional ou mesmo como a graça distante de uma vizinha trazendo comida num momento inapropriado. 

Escapando de um dramão europeu de festival mas não tanto. Ivo é o tipo de filme que se conforma e se fortalece ao se apoiar muito no trabalho de sua atriz principal. Quase em um processo autofágico de ser feito a partir do que ela oferece enquanto retorna a ela uma certa “matéria-prima” dramática. Coisa que Minna Wurdrich tira de letra.