Há algo de estranho em ver o rosto envelhecido de Winona Ryder portando o mesmo corte de cabelo da Lydia Deetz de mais de 30 anos atrás. E “estranho” não no sentido de insólito ou inusual, palavras que já foram usadas para descrever a outrora original obra de Tim Burton. Não, esse “estranho” parece suspeitamente familiar ao desespero.
Seria então esse o desespero de um artista criativamente falido se agarrando à nostalgia de um de seus primeiros sucessos? Pode ser. Não é por acaso que, na trama, a adorável esquisitice de Lydia Deetz tenha sido cooptada pelo mainstream no intervalo entre o primeiro filme e este “Os Fantasmas Ainda Se Divertem”. Antes deslocada, a agora mãe se tornou uma personalidade de TV que explora o paranormal em horário nobre. “Eu me vendi”, ela lamenta em dado momento da projeção, e as palavras parecem vir da boca de Burton. Mas é fácil chorar pela sua mediocridade artística com os bolsos cheios de grana.
Está claro que “Os Fantasmas Ainda Se Divertem” está sendo encarado pelo seu criador como um retorno à forma e, em parte, ele é. Ou, pelo menos, é um retorno à tatilidade das criações de Burton. Isso porque sua esquisitice característica se transformou numa maçaroca grosseira de CGI ao longo do novo milênio. Mas aqui, Burton retoma a preferência pelos animatrônicos e stop motion. Até mesmo a presença surpreendentemente acentuada do gore surge como aceno à diversão anárquica e descompromissada do primeiro filme.
Mas os tempos definitivamente mudaram. O hoje veterano e milionário Burton já não pode mais reclamar para si o papel de ovelha negra de Hollywood. Ele não é capaz de criar, por exemplo, uma personagem verdadeiramente outsider com Astrid, a filha de Lydia interpretada por Jenna Ortega. Presença carismática em outros filmes, Ortega aparece aqui amarrada a uma adolescente constantemente emburrada e aborrecida, sem nem um pingo do cuidado e imaginação visual que tornaram Lydia tão marcante décadas atrás.
E se a plot do filme original não podia ser mais simples – casal de fantasmas precisa espantar os novos moradores de sua casa –, a trama desta sequência é inexplicavelmente complexa. Sobram personagens e rostos conhecidos, mas nem mesmo Willem Dafoe e Monica Bellucci conseguem criar alguma forte impressão. Por vezes, a profusão de ideias e situações atiradas contra o espectador até impressiona – principalmente quando aliada ao humor mórbido do filme. Mas há um peso nesse excesso de estofo: o que outrora seria pura leveza, rapidez e energia juvenil se transformou em lore, mitologia e personagens zigue-zagueando a esmo. Até Michael Keaton parece cansado, embora siga divertido.
A epítome disso tudo parece ser mesmo o clímax do longa, uma sequência musical que começa debochada, mas acaba abarcando tantos personagens e se estendendo tanto que perde a razão de ser no meio do caminho. Mas há flashes de anarquia o suficiente aqui para sugerir que Burton talvez ainda tenha lenha para queimar. Talvez.












