“As reações vão ser divididas, né?”. Diretor de premiados curtas-metragens amazonenses nos últimos anos como “Enterrado no Quintal” e “Terra Nova”, Diego Bauer não esconde as incertezas que cercam a recepção ao novo filme da carreira. Marcado para abrir o Festival Olhar do Norte em pleno Teatro Amazonas na noite de 24 de dezembro, “Ri, Bola” mistura bromance, Cinema marginal com Cinema Novo, ficção e documentário, além de muita experimentação a partir de uma piada interna.
O ponto de partida é o desaparecimento da risada peculiar de Felipe Maya Jatobá, o Bola. O ator e diretor-geral do grupo teatral amazonense Jurubebas, ele virou figura fácil no Instagram de César Nogueira, diretor de fotografia e co-fundador da Artrupe, produtora de Bauer. O motivo? O riso pré-datado e incontrolável capaz de fazer a colega de trabalho do Silvio Santos ficar com inveja. Uma tragédia familiar e o consequente trauma, entretanto, fizeram com que o riso desaparecesse.
Incentivado por César e Bola, Bauer definiu a busca para recuperar o centro do novo curta da carreira. “Desde o início, a proposta era ser oposto do “Terra Nova”, ou seja, o menos clássico possível, o menos formal, o menos narrativo que eu conseguisse realizar. Minha ideia era realmente borrar a fronteira entre o que é verdade e o que não é”, disse Bauer em entrevista ao Cine Set.
POUQUINHO DE GLAUBER, POUQUINHO DE ‘AS BRANQUELAS’
O curta-metragem gravado em 2022 no melhor estilo de guerrilha – leia-se 0800 – acompanha Bola ao lado do seu fiel escudeiro César. Ora eles estão dando uma entrevista reclamando da nova geração canceladora, ora esperam ônibus com companhias ultra aleatórias, ora estão caçando uma chave debaixo do carro até estarem rodeados de amigos da cena teatral para um ritual final.
E não há vergonha alguma desta amizade ser definida com próxima da quinta série. “O estilo de comédia que poderia ter algum êxito para o Bola rir era aquela mais vulgar mesmo”, admitiu o diretor. Não à toa trechos de clássicos do besteirol como “Todo Mundo em Pânico” e “As Branquelas” são exibidos.
“Acho que uma das minhas principais características como pessoa mesmo é o sarcasmo, a ironia, um humor autodepreciativo, porém, mesmo sendo fã como espectador, sempre coloquei a comédia em um pedestal. É muito difícil produzir comédia por exigir além da dedicação e trabalho, mas, por necessitar de algo natural da pessoa”, disse Bauer.
Bauer, porém, revela que a influência dele vem de décadas atrás, fruto da veia cinéfila. “Para mim, “Ri, Bola” é uma cópia descarada do “Di Cavalcanti” (1977), do Glauber Rocha, do Cinema Marginal e dos conceitos do Rogério Sgarzela, especialmente, “O Signo do Caos” (2005). São obras febris, estranhas, mas, em que as coisas escalonam até chegar em uma parada de tirar o espectador do lugar”.
EXPERIMENTAÇÕES SONORAS E VISUAIS

Diego Bauer já dirigiu os curtas “O Tempo Passa”, “Enterrado no Quintal”, “Obeso Mórbido” e “Terra Nova”.
Seguindo a linha de experimentação, Bauer utiliza o ponto de partida inusitado e uma travessia fora do lugar para se arriscar nas mais diversas possibilidades visuais – “Ri, Bola” adota, por exemplo, uma razão de aspecto 4:3 e uma fotografia em preto e branco – e, principalmente, sonoras. “O meu grande objetivo no filme era fazer uma investigação sonora, afinal, estamos falando de uma risada. A característica da pessoa é o riso, o som orgânico, natural que ela emite. Logo, eu queria saber o que o riso diz sobre a gente”, declarou.
Para o roteiro, duas longas entrevistas de Bola e César serviram como base de situações, algumas mais dirigidas do que outras. Se há trechos presos ao texto inicial – todo o estranho monólogo da parada de ônibus, por exemplo -, sequências como as conversas são mais fluídas. A costura e a transformação em uma unidade vista no curta, entretanto, Bauer atribui a um fundamental parceiro – “o roteirista de fato é o Eduardo Resing, nosso montador. Ele é um craque e responsável pela overdose sonora que eu tanto desejava”.
Tantos riscos levam às incertezas em relação à recepção não apenas no Olhar do Norte, mas, também no Cine BH – Festival Internacional de Cinema de Belo Horizonte e no Olhar Film Festival – Festival de Cinema Itinerante Amazônida. “Acredito que a história de amizade seja universal. Todo mundo tem aquele amigo com uma risada diferente, logo, a perda disso vira uma espécie de elemento fantástico. Coisa meio Woody Allen, sabe? De qualquer forma, tenho orgulho demais do “Ri, Bola”. Tinha um potencial enorme de ser uma grande vergonha, porém, uma vez que encontramos caminhos para ele ao fazer, acho que funcionou”, completou.
FICHA TÉCNICA
Roteiro, Direção, Produção: Diego Bauer
Elenco: Felipe Maya Jatobá, César Nogueira, Wermon Stattos, Isabela Catão, Daniel Ferrat, Robson Ney, Andreza Afroamazônica
Produção: Karol Medeiros e Italo Bruce
Direção de Fotografia: André Cunha
Montagem: Eduardo Resing
Som Direto: Taiara Guedes
Edição e Mixagem De Som: Lucas Coelho
Cor: João Gabriel Riveres











