Um garoto corre por uma pequena sala de estar, a câmera corta para um vaso vermelho e a montagem deixa claro o quanto o objeto corre riscos diante da atividade física humana. Assim, somos apresentados a “Surpresa!”, curta-metragem dirigido por Jorge Filho que nos convida a entender a dinâmica familiar entre Fabiano e a mãe. 

Ela, uma doméstica e mãe-solo que precisa levar o filho para o trabalho porque não tem com quem deixar. A realidade de inúmeras mães periféricas pelo Brasil. Dessa forma, no primeiro momento, a ambientação fílmica nos leva a acreditar que estamos diante de um drama social que relaciona micro relações de poder – patroa e empregada – e, ao mesmo tempo, micro opressões como a empregadora que terminantemente ordena que a servidora não traga mais o filho para dentro de sua casa no horário de trabalho.

Tais questões, no entanto, ficam em segundo plano, diante do retrato (literal) de um homem sobre uma moto: o pai não presente de Fabiano. Não sabemos exatamente o que houve com ele, porque esta não é a preocupação do roteiro de Jorge Filho. Ao invés disso, o realizador nos possibilita enxergar a ausência como o elemento-chave da narrativa. Sabemos que o garoto acompanha a mãe para o trabalho, porque o pai não pode estar com ele no decorrer das férias. Fabiano afirma para a mãe que se o pai estivesse aqui – ou seja, uma colocação espacial – ele não só cuidaria da criança, como também da companheira. Assim, a cadeira vaga na cozinha pode representar uma inexistência física, mas conceitualmente tão tangível quanto qualquer uma das outras pessoas concretamente apresentadas.

“Surpresa!” usa a ausência paterna para explorar questionamentos e anseios que permeiam a sociedade contemporânea. A jornada de Fabiano e a mãe seria diferente se houvesse a figura de apoio masculina entre eles – o menino não amargaria a solidão e a mãe, o risco de perder o emprego. Contudo, assim como em várias famílias periféricas brasileiras, o pai se faz presente na lembrança registrada pela fotografia, imagem essa usada recorrentemente no decorrer da trama. Por outro lado, tal circunstância abre margens para refletir sobre dois pontos distintos: homens negros mortos precocemente – um temor que parece sondar Fabiano e a mãe – e as mães solos abandonadas pelos progenitores de sua cria. Não sabemos a qual ponto esta produção pertence,  mas, ao fim, podemos nos indagar o que simboliza realmente a presença e a ausência deste homem? A resposta mais sólida encontra-se na reação que ambos tem diante do corpo que surge entre eles.

Admito que até este momento da narrativa de “Surpresa!”, acreditava tratar-se de um filme de drama, não do terror que se revela no rosto e na expressão de espanto da protagonista. Isso decorre porque a direção demora muito para criar a ambientação que encaminhe para a expectativa e aterrorização, por isso não consegue criar o impacto que poderia deixar sobre o público. Tanto a trilha sonora quanto a fotografia e a montagem não preparam o espectador para os caminhos que a trama toma diante da ausência, fazendo com que o final – que poderia ser apoteótico – seja tão anêmico e robótico quanto as interpretações engessadas da dupla protagonista.

Neste sentido, apesar de não nos preparar para a virada de chave narrativa, um dos grandes destaques da construção visual de “Surpresa!” é a fotografia e a direção de arte que dialogam para trazer tonalidades que exploram caracterizações das personagens centrais. Há a presença insistente do amarelo sobre a casa e o rosto da mãe, ao mesmo tempo em que Fabiano alterna entre o vermelho e o verde, esta última evidencia o otimismo que permeia as ações irresponsáveis do garoto. Além disso, a organização entre as cores dialoga para que estejamos atentos ao comportamento deste núcleo familiar.

Tudo isso só deixa mais claro o quanto “Surpresa!” tinha um potencial maior para adentrar no campo social. O que me leva a lê-lo melhor com a mensagem social do horror de ser mãe solo e de ser órfão do que uma produção com um zumbi.