Lembram-se do Bill e do Ted? No passado, eles viveram duas divertidas e malucas aventuras cinematográficas que tinham tudo para dar errado, mas acabaram funcionando e se tornando inesperados sucessos graças a roteiros que aliavam besteirol e criatividade, e à química dos seus astros principais. Em Bill & Ted: Uma Aventura Fantástica (1989) e Bill & Ted: Dois Loucos no Tempo (1991), esses dois caras que não sabiam tocar, e que também não eram os sujeitos mais inteligentes da escola, viajaram no tempo, conheceram figuras da História, aplicaram um “cuecão” na Morte e enfrentaram seus Eus malvados. Lembrou? Pois é, a onda nostálgica do cinema atual não deixou nem Bill & Ted em paz. Parece que a maioria dos filmes que um dia passaram na Tela Quente ou na Sessão da Tarde ganhou algum tipo de sobrevida em anos recentes.

Felizmente, Bill & Ted, os personagens, eram cults antes de esse termo virar moda. Cults, não populares ao extremo, como outros fenômenos da cultura pop que de vez em quando passam por percalços ao serem revividos. Bill & Ted são um fenômeno menor, mas têm fãs fervorosos que mantiveram o interesse em mais um filme vivo, e justamente por ser fiel ao espírito cult e nonsense das suas aventuras passadas, a nova investida da dupla, Bill & Ted: Encare a Música, acaba sendo uma boa diversão para este conturbado ano de 2020.

A trama traz de volta os bobocas William “Bill” S. Preston, cavalheiro, e Ted “Theodore” Logan, novamente vividos por Alex Winter e Keanu Reeves. Quando os deixamos eles eram jovens; agora são dois tiozões, astros do rock, vivendo confortáveis, casados com as princesas que trouxeram da Idade Média e cada qual com uma filha jovem, Billie (Brigette Lundy-Paine) e Thea (Samara Weaving). Porém, o dom da música fugiu de Bill e Ted e eles não realizaram o sonho de compor a música que uniria o mundo – o que foi profetizado que fariam. Quando uma encrenca começa a ameaçar a realidade – não pergunte – os heróis iniciam uma nova viagem no tempo em busca da tal música, onde se depararão com os seus futuros, enquanto suas filhas também viajam para ajudá-los a reunir uma banda para tocar a tal música.

NONSENSE INVENTIVO

Não foram só Reeves e Winter que retornaram para esta terceira parte tardia: vários dos atores que participaram dos dois anteriores, e os mesmos criadores da dupla, os roteiristas Chris Matheson e Ed Solomon, também voltaram. E o maior acerto da dupla de roteiristas é não levar a sério a trama do filme em momento algum. A chave para se apreciar Bill & Ted é não se apegar muito à lógica de viagem no tempo: É o tipo de filme que o espectador deve embarcar e seguir de um ponto imaginativo a outro, e o roteiro joga vários deles na direção do público: Os heróis conhecem suas versões futuras, com divertidas caracterizações e um engraçado trabalho de maquiagem para os astros; as filhas de Bill e Ted roubam a cena; há um robô assassino bem distante do espírito de O Exterminador do Futuro (1984); uma viagem ao inferno, algumas pontas de músicos famosos e um clímax apocalíptico. É um filme boboca, mas no bom sentido, com um clima de nonsense inventivo.

Contribui para esse clima a direção eficaz de Dean Parisot, e de comédia cult ele entende, tendo sido responsável pelo divertidíssimo Galaxy Quest: Heróis Fora de Órbita (1999). Como diretor, ele administra as oportunidades para seu elenco brilhar. Ainda assim, é verdade que nem todas as piadas acertam o alvo – algumas cenas com o robô e alguns diálogos e situações do meio para o final não funcionam. Mesmo assim, não é por falta de tentativa. Percebe-se que o elenco se diverte bastante aqui, especialmente Lundy-Paine e Weaving, William Sadler retornando como a Morte – a DR entre a Morte e Bill e Ted é uma das melhores cenas do longa – e, claro, Reeves e Winter, cuja química permanece forte mesmo depois de tantos anos. É graças aos dois que esses três filmes existem.

No fim das contas, como a cultura da nostalgia vem nos ensinando, é impossível voltar no tempo, então Bill & Ted: Encare a Música acaba sendo inferior aos seus dois predecessores. Mas, ao mesmo tempo, é exatamente o filme que precisava ser: feito para os fãs para dar uma sensação de encerramento, com aquele mesmo clima ingênuo e uma mensagem sincera e apesar de toda a maluquice, válida, sobre “sermos excelentes uns para com os outros”. Não deixa de ser irônico que o retorno de dois sujeitos de alto-astral inabalável como Bill e Ted ocorra no triste ano de 2020. Mas talvez eles tenham surgido no momento certo, trazendo uma mensagem singela e algumas risadas. Não se pode pedir mais que isso deles, e essas risadas são de uma variedade que você simplesmente não encontraria em outro tipo de filme. E isso é a definição de cult…

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