Em “A Herança”, Tom é um imigrante brasileiro na Alemanha vivendo com o namorado, Beni. Quando sua mãe morre, ele descobre ser dono de uma antiga fazenda da qual nunca havia ouvido falar. O casarão é uma versão verde-e-amarela das mansões góticas dos clássicos de terror, acompanhada de uma criada misteriosa e duas tias impossivelmente solícitas que parecem esconder algo sinistro. Com Beni à reboque, Tom vai descobrir que o lugar não é o que parece.

A partir dessa premissa, aquele espectador já com certa quilometragem pode imaginar o que se sucede. Por exemplo, que as tias têm algum plano secreto ou que a casa e sua influência maligna irão testar o relacionamento de Tom e Beni. O primeiro terço de “A Herança” deixa claro que o diretor João Zacharias não pretende reinventar a roda. Na maior parte do tempo, seu filme avança no mesmo ritmo de seus travellings: lenta e decididamente, sem passos em falso.

É o que dá ao projeto uma certa roupagem clássica e ponderada, que se traduz no aparente esmero da produção. Pegue, por exemplo, as escolhas de luz  que adornam os quadros, ou os violinos da trilha sonora, e a palavra que lhe virá à mente provavelmente será esta: “competente”.

E pode um longa se sustentar por 80 minutos ancorado apenas a sua competência? Até que sim – ou, pelo menos, até pouco depois da metade da trama, quando o cansaço das viradas óbvias ameaça pôr tudo abaixo. Se isso não ocorre, é graças a uma bem-vinda guinada envolvendo gênero, sexualidade e rituais satânicos, que garante certo frescor à história. 

São em momentos como esse ou nas primeiras sugestões de sobrenatural ainda no início da projeção, que o filme de Zaccharias constrói uma atmosfera genuinamente sinistra. Pena que o diretor quase ponha tudo a perder com um clímax não apenas óbvio (afinal, a obviedade faz parte do projeto), mas imperdoavelmente feio. Falo da incursão pelo CGI, que o filme acredita precisar realizar para potencializar o impacto de seus horrores finais. É horrível, de fato, mas não pelos motivos que os realizadores gostariam.

Melhor seria reduzir a escala das coisas e apostar em outra direção – afinal, os momentos mais eficazes da trama em nada dependem desse tipo de trucagem. Do jeito que está, “A Herança” se revela um filme majoritariamente competente, mas irrevogavelmente irregular.