Às vezes, a matemática da crítica de cinema é incontornável: Venom (2018), o primeiro filme-solo de um dos vilões do Homem-Aranha, que replicou seus dias de anti-herói nas HQs também nas telonas, foi uma bomba atômica. 

A continuação, Venom: Tempo de Carnificina (2021), conseguiu ser ainda pior que o primeiro.

Agora, chega a terceira parte, Venom: A Última Rodada. Você, caro leitor, tinha alguma esperança de que isso aqui fosse ser bom? Algumas coisas simplesmente não têm jeito. Bem, pelo menos, posso dizer que o terceiro é um pouquinho melhor do que o anterior.

Neste novo filme, Eddie Brock (interpretado por Tom Hardy) e seu amigo simbionte Venom (no original, também dublado por Hardy) começam naquela ceninha pós-créditos que vimos em Homem-Aranha: Sem Volta para Casa (2021). Mas eles logo caem fora do multiverso e depois, tentam chegar à Nova York para ajudar um amigo do longa anterior, quando começam a ser caçados por uma equipe militar que trabalha para cientistas e também por monstrengos a serviço do malvadão da vez, o pai da raça de simbiontes. Tanta pressão vai colocar um grande stress no relacionamento dos dois. 

Durante a jornada, Eddie e Venom vão parar em Las Vegas e também na infame Área 51. Ah, e o simbionte vai possuir alguns animais no caminho, incluindo um peixe e um cavalo, adicionando à quantidade de bizarrices da trilogia. A interação entre Eddie e o monstro continua naquele jeitinho que já conhecemos dos anteriores, ou seja, sem graça na maior parte do tempo, e bem irritante em alguns momentos. 

Tom Hardy, talvez, seja o primeiro ator do cinema que conseguiu ter como seu pior coadjuvante ele mesmo – um feito digno de nota. Se no primeiro filme, a atuação pirada do ator, quase como se possuído por Jim Carrey em alguns momentos, rendia uma ou outra risada, aqui ele só parece meio triste por boa parte do longa. Afinal, ele tinha contrato para três filmes nessa franquia e este aqui cheira a obrigação contratual. E quando percebemos que Hardy foi o autor do argumento do filme, junto com a diretora Kelly Marcel – estreando na função após roteirizar Cinquenta Tons de Cinza (2015) e os Venom anteriores – aí temos outro feito digno de nota.

É um roteiro cheio do que “não fazer”: protagonista arrastado pelas circunstâncias, que só reage; intervalos cômicos sem sentido – a “dancinha” do Venom – conveniências e um vilão saído de uma capa de disco de heavy metal que, no fim das contas, não faz nada na trama. No meio do caminho, uma família de fanáticos por alienígenas que quer visitar a Área 51, e suas interações com Eddie, rendem algumas (poucas) risadas.

Aí entra uma curiosidade: este A Última Rodada traz no elenco Chiwetel Ejiofor, que já teve um papel de destaque no Marvel Studios, e Rhys Ifans, que foi vilão em O Espetacular Homem-Aranha (2012) com Andrew Garfield. É realmente o multiverso da escalação de elenco…

O clímax é até bem encenado por Marcel e sua equipe de efeitos visuais e de segunda unidade, e temos as explosões e lutas que geralmente vemos nesse tipo de filme. Mas é tudo tão feio e bizarro com os monstros e simbiontes ficando cada vez maiores e mais horríveis, que fica a sensação de que este terceiro filme, assim como seus predecessores, é ruim de propósito, e nenhum dos envolvidos ali tinha qualquer interesse na empreitada, além da grana que receberam. Ao final, este Venom 3 não termina com empolgação, mas com uma sensação de rotina e de alívio.

Aliás, é interessante como essa trilogia serve para marcar o que aconteceu com o subgênero dos super-heróis nos últimos anos. O primeiro Venom foi um enorme e surpreendente sucesso de bilheteria, surgindo naquela maré alta dos longas dos Vingadores do Marvel Studios. Naquela época, já um pouco distante, o público parecia completamente faminto por esse tipo de produção. O segundo Venom, lançado após a pandemia quando os cinemas estavam ainda em processo de reabertura, ficou abaixo mas também foi muito aceito, dadas as circunstâncias do seu lançamento.

Agora, este terceiro vem depois que os longas do estúdio Sony com personagens secundários do universo do Homem-Aranha se tornaram não só ruins de bilheteria, como universalmente ridicularizados – depois de Morbius (2022) e Madame Teia (2024), estamos num novo momento para o subgênero, no qual o público parece cansado e não mais a fim de aceitar qualquer coisa. Será? Cruzemos os dedos… 

Talvez em ao menos uma coisa Tom Hardy e os produtores tenham acertado com essa trilogia abobalhada e inconsequente: Escolheram a hora certa para parar.