Em uma das cenas mais impactantes de “Terra em Transe” (1967), dirigido por Glauber Rocha, o personagem Porfírio Diaz afirma de forma contundente: “O povo não é nada.” Esse momento é crucial no filme e reflete o legado colonial e a luta de classes, temas centrais na obra de Rocha. A cena utiliza a quebra da quarta parede — recurso em que o personagem olha diretamente para a câmera — para confrontar o espectador, forçando-o a refletir sobre sua própria posição diante da opressão social e política retratada no filme.   

A fala de Diaz, sugerindo que o colonialismo e a industrialização poderiam trazer benefícios ao povo, é rapidamente desmontada pelo próprio personagem, que afirma que os colonizadores são “feras famintas” que sugam a energia e o sangue dos trabalhadores. Esse diálogo encapsula a crítica ao poder das elites coloniais e à exploração das massas, um retrato amargo da realidade política da América Latina nos anos 1960. Além do impacto do diálogo, as escolhas técnicas de Glauber Rocha reforçam essa crítica.   

A iluminação acentua as sombras nos rostos dos personagens, simbolizando a escuridão da opressão. Os planos fechados amplificam a tensão e a gravidade dos discursos, enquanto os planos abertos sugerem a indiferença das elites em relação ao sofrimento do povo. Essas técnicas tornam a cena ainda mais visceral e envolvente, situando o espectador no meio do conflito.  

“Terra em Transe” é uma alegoria da desilusão política e da luta pela liberdade nas sociedades latino-americanas, que sofreram com as consequências duradouras do colonialismo. Glauber Rocha, através dessa cena, sintetiza as tensões entre opressores e oprimidos, ressaltando a urgência da resistência e da autodeterminação.  

A teoria do colonialismo, aplicada ao cinema do Sul Global, examina como o legado colonial impacta a produção e representação cinematográfica dessas regiões. Filmes como “Terra em Transe” exploram temas como resistência, autodeterminação e identidade cultural, contrapondo tradições locais às influências coloniais. A obra de Rocha é um marco dessa abordagem, expondo com clareza as contradições políticas e sociais de uma América Latina em luta.  

Esse uso simbólico do cinema, que desafia a estrutura de poder e a narrativa dominante, reflete a busca de Glauber Rocha por uma linguagem cinematográfica que questiona o status quo. Ao combinar uma narrativa fragmentada com elementos visuais e temáticos complexos, Rocha cria uma obra que transcende o tempo, continuando a ecoar as lutas contemporâneas por justiça e igualdade.