Prepare os lenços: “Todo o Tempo Que Temos”, novo filme de John Crowley, mira diretamente no coração com uma história de amor à moda antiga refrescada o suficiente para públicos modernos. Exibido no Festival de Londres depois da estreia em Toronto, o filme largamente se atém aos moldes do gênero, mas é feito com confiança e talento de sobra para entreter os últimos românticos.  

Os românticos do filme, no caso, são Tobias (Andrew Garfield) e Almut (Florence Pugh) – um jovem casal londrino que a trama acompanha por uma década. Entre os dias de luta e dias de glória da carreira e da vida familiar, um diagnóstico de câncer os faz questionar o sentido de seu relacionamento, bem como a relação de ambos com o tempo. 

 Essa última parte se manifesta no roteiro (escrito por Nick Payne) através da engenhosa decisão de apresentar esta história – não necessariamente inovadora – de forma não-linear. Apesar de não ser essencial, o formato impõe aos espectadores o mesmo ponto de vista que os protagonistas estão tentando ter em suas vidas, isto é, o de pessoas tentando enxergar (e sentir) o presente.  

Ele também rouba de “Todo o Tempo Que Temos” o aspecto desgraça-pouca-é-bobagem (um tanto comum em filmes sobre câncer), mostrando fragmentos memoráveis do que acontece em uma vida entre as visitas hospitalares. Esta é claramente a história de duas pessoas não se rendendo e os pulos cronológicos permitem ao público celebrar suas pequenas vitórias, às vezes esquecendo o duro contexto em que estão inseridas.   

Mesmo com essa ajuda estrutural, é impressionante a quantidade de humor que Crowley e Payne – ajudados pelos cortes precisos da editora Justine Wright – encontram nesse material. O primeiro encontro do casal e, em especial, uma histérica cena situada em um posto de gasolina são momentos que têm tudo para virar clássicos do gênero. 

Há quem encha a boca para dizer que um filme vive ou morre na mão de seu casting. Enquanto isso possa ser uma regra geral demais para se aplicar à toda Sétima Arte, ela certamente se aplica aqui: esta produção voa com as asas de Fiona Weir, que encontrou em Garfield e Pugh um par perfeito para vender esta história. 

Ver dois atores deste calibre usarem seus talentos multifacetados (e sua química) é um deleite. Pugh, em particular, está ótima. Sua Almut é uma mulher que se vê precisando equilibrar entre sonhos profissionais, responsabilidades emocionais e sua saúde debilitada. Que ela consiga dar uma performance gigante aqui, mesmo reinterpretando alguns pontos narrativos já batidos, é notável. 

Exigir inovações mirabolantes de “Todo o Tempo Que Temos” é falhar em ver o que o filme faz de melhor: abraçar um gênero tradicional e fazer o público acreditar que, por quase 2h, não existe mais nada além deste romance. Parafraseando a poeta Emily Dickinson, eis um longa sobre os agoras dos quais o para sempre é feito. Não olhe o relógio.