Sorria 2, do diretor Parker Finn, é um filme que reúne muitas qualidades e também alguns dos problemas e clichês que estamos começando a notar com frequência no terror atual. É mais grandioso e superior em relação ao original Sorria (2022), cujo sucesso surpreendeu há alguns anos. De fato, em alguns momentos esta sequência é tão interessante e bacana que o espectador não consegue deixar de se sentir frustrado pelos probleminhas que aparecem aqui e ali durante a narrativa.
Para quem assistiu o original, o esqueleto da trama é praticamente a mesmo: vamos acompanhar alguns pobres coitados atormentados pela misteriosa entidade que pula de uma vítima para outra, as atormenta com visões de pessoas com um estranho sorriso e depois as faz tirar as próprias vidas. Temos um prólogo que mostra o destino de um dos personagens que restou do primeiro filme e aí este Sorria 2 já demonstra sua inventividade com um plano-sequência tenso. Nota-se como Parker Finn se mostra mais confiante de um filme para o outro.
Então passamos para a história da nossa protagonista: Skye Riley, uma artista pop ficcional, metade Miley Cyrus, metade Taylor Swift, que experimentou uma tragédia recente. É ela quem vai ser atormentada pelo encosto sorridente, quando vê um amigo de infância – e agora traficante – ter uma morte horrível na sua frente. Quanto mais o tempo passa, mais ela experimenta as alucinações com sorriso bizarro e fica próxima da loucura. Desesperada, Riley passa a buscar uma forma de se livrar da entidade.
A protagonista traumatizada pela morte de um ente querido, sinceramente, já está começando a aborrecer nos filmes de terror modernos: roteiristas em breve vão ter que começar a inventar outros modos de tentar adicionar profundidade aos seus personagens. O ângulo do trauma aqui é usado para criar uma conexão com a heroína e também incutir a noção dramática de que são seus próprios vícios e fraquezas que plantam as sementes da maldição sobrenatural. Só que esse subtexto nem merece ser chamado assim porque é algo tão óbvio – e sinceramente, clichê – que só serve para evocar aqueles chavões: “ah, o filme é bom porque o terror é uma metáfora para o luto, ou para uma doença mental”… Saudade de uma época na qual os filmes não precisavam alardear de maneira tão óbvia as suas ideias.
E de fato, para cada cena dramática, Finn inclui um momento bizarro ou sinistramente engraçado envolvendo uma pessoa sendo assombrada. E tem de tudo: “Sorria 2” é basicamente uma sucessão de cenas esquisitas envolvendo a heroína com ângulos de câmera estranhos e uma trilha sonora eletrônica dissonante, que inclui até um coral maluco em alguns trechos. Essa oscilação de tom, ora dramático, ora estranhamente cômico, faz pensar que o próprio diretor é meio cínico sobre a narrativa que está criando ou que está usando os elementos dramáticos para tentar dar profundidade a uma história na verdade rasa e repetitiva.
Bem, pelo lado bom, algumas das cenas esquisitas são MUITO bizarras e a sucessão delas cria um clima de genuíno estranhamento na narrativa, onde aos poucos a fronteira entre realidade e alucinação evapora. Algumas imagens que Finn e o diretor de fotografia Charlie Saroff são de fato perturbadoras. E agora, algumas delas envolvem até dança e coreografias típicas de canções pop.
Ancorando tudo isso, temos a incrível atuação de Naomi Scott como Skye: “Sorria 2” exige muito dela, física e emocionalmente, mas a jovem atriz encara o desafio com gosto e retrata a progressão da perturbação mental da heroína de modo exemplar. O rosto dela, com olhos arregalados e boca aberta, acaba sendo uma imagem assinatura do longa, tanto quanto as pessoas sorrindo e olhando de baixo para cima. É realmente uma performance que indica que ouviremos falar muito dessa atriz nos próximos anos.
Então, Sorria 2 cruza a linha de chegada como um filme de grandes qualidades e alguns defeitos bobos – sério, precisava se estender mais de duas horas? Seus problemas parecem decorrer da abordagem estilo “pós-terror” que vemos hoje (lá vai esse termo de novo…): uma seriedade e dramaticidades que o material não consegue justificar e um tom pós-moderno metido a espertinho.
Já as qualidades transparecem justamente dos elementos com que o gênero vêm lidando desde o começo do cinema, ou seja, boas atuações e cenas enervantes ou estranhas que ficam na memória. Mesmo assim, é um filme interessante mesmo para quem não gostou tanto assim do original – como eu, confesso.
Sorria 2, apesar de alguns elementos discutíveis, provoca sim alguns sorrisos doentios a quem curte esse tipo de história. E de minha parte, fiquei muito interessado para ver o que Parker Finn e Naomi Scott farão a seguir.















