O Pinguim interpretado por Colin Farrell foi uma das coisas mais interessantes do Batman (2022) do diretor Matt Reeves: uma versão do personagem mais séria e que se encaixou bem com a Gotham City que o cineasta criou, uma cidade suja e corrupta onde uma figura sub-reptícia como aquela não é apenas natural, mas também encontra espaço para prosperar. E claro, a atuação do irlandês também ajudou a torná-lo marcante.

Enquanto a parte 2 do filme não sai – e já é uma longa espera – Reeves e a HBO produziram Pinguim, a minissérie de oito episódios dedicada a explorar mais o personagem e o seu universo sombrio. Sob o comando da showrunner Lauren LeFranc e com episódios dirigidos por veteranos de cinema e TV como Craig Zobel e Helen Shaver, a série tem seus pontos altos, mas também alguns baixos.

A intenção dos produtores é, claro, contar uma saga épica criminosa ambientada em Gotham. Logo após os eventos de Batman, nos quais boa parte da cidade foi acometida por um desastre, Oz Cobb (Farrell) acaba matando – meio sem querer, querendo – um nome importante da máfia. Para salvar a própria pele, ele cria um esquema para manipular as duas grandes famílias mafiosas da cidade, os Falcones e os Maronis. O Pinguim pode não ser tão inteligente quanto pensa, mas sabe improvisar, e principalmente, é uma figura sempre subestimada – e sabe usar isso a seu favor. Enquanto isso, Sofia Falcone (interpretada por Cristin Milioti) volta ao lar após anos encarcerada no Asilo Arkham por ter sido acusada de assassinatos. A trajetória criminosa dela vai acabar colidindo com a de Cobb.

Para quem gostou da visão de Reeves para o universo do Morcego – como eu – uma das maiores qualidades de Pinguim é recriar aquele mundo de forma orgânica e natural. De fato, é até recomendável (mas não imprescindível) ver o filme antes da série, pois alguns pontos da trama do cinema têm influência na minissérie. E o excepcional trabalho de fotografia de Greig Fraser no filme é o guia para a série, mantendo a coesão visual e narrativa. Como produtor-executivo orientando a atração, Reeves faz questão de adicionar mais elementos a sua visão de Gotham, como as desigualdades sociais, a corrupção que parece fazer parte do DNA dos habitantes da cidade e o senso de desesperança.

E Colin Farrell, obviamente, continua perfeito como Oz Cobb. O caso dele é interessante: por ter pinta de astro, por muitos anos Hollywood tentou transformar Farrell em um novo Tom Cruise ou Brad Pitt. Mas ele é um character actor por definição, aquele tipo de intérprete que se dá bem quando desaparece num papel ou quando é coadjuvante, e se deu melhor aparecendo em produções pequenas do que em grandes blockbusters.

Reeves entendeu isso quando o escalou como Pinguim: apesar de ser coxo e repugnante, Oz precisa ter uma presença e até um sex appeal para funcionar como personagem. Farrell traz isso já naturalmente e, ao desaparecer sob a maquiagem, acaba encontrando chances para ressaltar as nuances do personagem. Ele pode até se dar ao luxo de ser caricato nesse papel, e às vezes é, pois está dentro da proposta.

Pena que a caracterização ocasionalmente sofra por causa de uns problemas do roteiro. Todos os personagens, exceto pelo jovem auxiliar de Cobb feito pelo ótimo Rhenzy Feliz, são caricaturais, incluindo os mafiosos. A dinâmica do protagonista com sua mãe (Dierdre O’Connell) parece um pastiche das primeiras temporadas de Família Soprano – sério, alguns momentos entre eles poderiam até ser acusados de plágio, não fossem ambas as séries da HBO.

Apesar da presença e da ótima atuação de Cristin Milioti, que rouba a cena em alguns momentos, Sofia também é uma caricatura: ela começa muito interessante como uma panela de pressão prestes a estourar, mas, ao longo da série, fica cada vez mais parecida com vilã de história em quadrinhos. O ponto de virada da personagem é marcado não por uma mudança psicológica calcada no drama, mas sim na superficialidade: percebemos que Sofia ficou doidinha e que “o bicho vai pegar” quando ela muda o cabelo e passa a usar vestidos sexys, porque é assim que toda psicopata se comporta, não é? No último episódio ela já está fazendo monólogos e desperdiçando a chance de matar nosso anti-herói, como toda vilã clichê.

O resultado é meio esquizofrênico: um drama realista e pé no chão sobre crime – e no qual o Batman não aparece e é apenas brevemente citado – mas habitado por figuras cartunescas. Porém, mesmo com as limitações do texto, Pinguim, a minissérie, é uma atração a que se assiste com facilidade. Não há muitas surpresas na trama para quem já viu alguns filmes de máfia, mas Farrell, Milioti e Felix mantêm o espectador ligado.

E há momentos inspirados do roteiro: os últimos episódios chegam a desafiar a nossa empatia por Oz Cobb, e a série de fato se compromete com a noção de fazer de um monstro o “herói” pelo qual o público torce. Entre pontos positivos e negativos, Pinguim é bem-sucedida em puxar o tapete do espectador. Com certeza, quando voltarmos a Gotham City em Batman: Parte 2, sentiremos um misto de ansiedade e – por que não? – uma estranha saudade de Oz Cobb, tudo graças a esta minissérie.