Residente em Manaus há seis anos, a atriz argentina Sofia Sahakian não consegue ter tantas grandes oportunidades no audiovisual amazonense, muitas vezes, devido ao forte sotaque espanhol e aos traços que fogem do padrão frequentemente procurado em produções na região. Castanho foi o único projeto de maior destaque dela nas telas locais, além da participação na peça Cabaré Chinelo nas primeiras apresentações do sucesso do grupo teatral Ateliê 23.
“Jamais faria filmes se ficasse esperando. Você tem que fazer um caminho próprio”, disse Sofia em conversa com o Cine Set no Matapi – Mercado Audiovisual do Norte. E, como boa ariana que é, a argentina dirigiu Tu foi Tu, curta-metragem de ficção gravado na casa da própria atriz em agosto de 2024. A produção se passa ao longo de 12 horas – das 19h às 7h – e mostra quatro amigas se encontrando após muito tempo na casa de uma delas. De repente, a filha de uma das amigas acaba precisando ficar no local, mudando toda a configuração da noite.

Amanda Magaiver, Andira Angeli, Karol Medeiros e Isabela Catão são as protagonistas do filme. Foto: Letícia Scantbelruy
Antes de ser selecionado no edital com recursos da Lei Paulo Gustavo, Sofia já tinha o desejo de fazer o curta como uma forma de homenagear as amigas artistas com quem divide os desafios do setor cultural em Manaus. Tanto que as personagens têm os mesmos nomes das atrizes: Amanda Magaiver, Andira Angeli, Karol Medeiros e Isabela Catão. “Acredito que um ator nunca deixa de dar um pouco de si mesmo para os personagens que faz. Há sempre essa troca, essa mistura”, disse.
A equipe técnica de Tu foi Tu também é majoritariamente feminina, com Valentina Ricardo na direção de fotografia, Letícia Scantbelruy no figurino e a montadora mineira Luiza Garcia. “Sempre prefiro trabalhar com mulheres por ter uma certa sensação de liberdade e de ser ouvida”, declarou Sofia. O time do curta-metragem ainda conta com Francisco Ricardo na direção de arte e Ítalo Bruce na produção executiva.
DIRIGINDO A PRÓPRIA FILHA
Depois de rodar o curta Fim de Nós no mestrado em Cuba, atualmente em fase de montagem, Sofia enfrentou um desafio gigantesco no segundo filme de sua carreira: dirigir a própria filha, Léa Sahakian. Não que orientar crianças seja uma novidade para a atriz argentina, sendo até uma preferência ao trabalhar como preparadora de elenco. “Elas são muito próximas da verdade das coisas. Os adultos atuam mais de forma consciente, enquanto meninos e meninas trazem o que sentem no momento. No cinema, isso se revela muito facilmente”, explicou.
E Léa traz a veia artística no DNA, afinal, ela é filha do relacionamento entre Sofia e o também ator Adanilo. Segundo a atriz argentina, durante as gravações, havia cuidados extras com ela, especialmente em relação aos horários de trabalho – seis horas por dia, no máximo. Uma cena, entretanto, revelou-se o maior desafio. “Era uma sequência em que a personagem dela tinha de chorar bastante, angustiada. Apesar de já ter visitado diversos sets comigo e com o pai e saber que cinema é uma grande encenação, foi complicado, inclusive para mim como mãe, conseguir gravar esse momento. Sofri bastante também”, revelou.
Tu foi Tu é apenas o começo para Léa: com o desejo de seguir a carreira de atriz, ela já fez outros três filmes após o curta da mãe, entre eles, Dia dos Pais, novo filme de Bernardo Ale Abinader, conhecido por O Barco e o Rio.
IMPROVISOS E PRAZOS
Formada em Teatro e Dança, Sofia consegue mais espaço no cinema amazonense como preparadora de elenco. Neste ano, ela ocupou essa função em três produções: Tarde Dentro da Tarde, 3×4 e Abuelita. “Para cada filme, a preparação depende muito da direção, sendo necessário uma grande conversa com eles para entender aonde querem ir. Alguns querem que eu esteja no set, e outros, somente no período de pré-produção,” explicou.
Para Tu foi Tu, a ideia inicial de Sofia era fazer uma obra mais experimental, com bastante improvisação. A situação mudou a partir do momento em que o projeto foi selecionado no edital, devido à responsabilidade do financiamento público da obra.
“Foi bastante angustiante em certos aspectos. Claro que é encantador ganhar um edital, mas, de certa forma, isso te condiciona a adotar determinadas regras do mercado. Eu pretendia fazer muitos ensaios, mas as agendas estavam apertadas, havia a campanha política, todo mundo com vários projetos ao mesmo tempo. Já que estava na direção, eu precisava resolver. Logo, não chegou a ser aquela improvisação radical; havia um caminho”, declarou Sofia.
O curta-metragem amazonense deve ser lançado em 2025.












