Depois de visitas pontuais em “Vicky Cristina Barcelona” e “Meia-Noite em Paris”, Woody Allen resolveu passar a velhice fazendo seus filmes na Europa, especialmente, na França, onde sempre foi amado e resistiu a toda a onda de acusação nos EUA proveniente do #MeToo – para quem abrigou Roman Polanski, por que não fariam o mesmo com o cineasta novaiorquino?  Lá, rodou “O Festival do Amor” (2020) seguido por “Golpe de Sorte em Paris” (2024). Se por um lado, temos uma ligeira evolução em relação à obra lançada na pandemia – desafio não muito difícil pela fragilidade do antecessor -, por outro, fica uma clara sensação de que Allen desistiu de qualquer busca maior por sofisticação e vai no piloto automático.  

“Golpe de Sorte em Paris” passeia por um dos temas preferidos do diretor/roteirista: a sorte e o acaso. Isso a partir de uma história simples de um triângulo amoroso em que a mocinha (Lou de Laâge) é casada com um milionário de passado misterioso (Melvil Poupaud), mas, se envolve com um sujeito da época da escola (Niels Schneider). Woody Allen sabe estar longe dos achados inventivos de uma “A Rosa Púrpura do Cairo” ou “Desconstruindo Harry” muito menos busca com a complexidade de “Crimes e Pecados” e “Match Point”. 

Ainda assim, o olhar clínico para a burguesia endinheira vem carregada no cinismo, seja nos comentários jocosos pelas costas feitos aos montes ou no papo do ricaço dizendo que ganha dinheiro fazendo os outros ricos, no melhor estilo empreendedor da Faria Lima, mas, sem contar os podres que o cerca. A opção de Allen pela regravação de “Cantaloupe Island”, por Nat Adderley, com um ritmo mais acelerado do que o jazz clássico que costuma embalar suas obras realça o caráter satírico de uma grande farsa por todos os lados.  

“Golpe de Sorte em Paris” ainda explora a virtude de ser direto ao ponto: tudo se desenrola com uma impressionante rapidez, especialmente a forma como se passa da reviravolta para os novos caminhos através da personagem de Valérie Lemercier. Tudo isso alavancado pela precisão da encenação que faz certos momentos ótimos de acompanhar apenas pela maneira de como tudo se desenrola – a cena de abertura do primeiro encontro dos futuros amantes está no ápice.   

A parceria com o mestre italiano da fotografia Vittorio Storaro, entretanto, parece dar sinais claros de desgaste. Se as luzes exageradas e intensas em “Roda Gigante” casavam tão bem com a protagonista de Kate Winslet, aqui, vão para os caminhos mais óbvios possíveis. A casa dos amantes possui um tom amarelado remetendo a um sonho, enquanto o azulado da residência do marido traído traz a frieza e distanciamento entre os dois, ou seja, o básico do básico.   

De qualquer modo, “Golpe de Sorte em Paris” é aquele filme que não ofende nem brilha os olhos. Está no mesmo naipe de obras como “Melinda e Melinda”, “Você vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos” e “Magia ao Luar”, produções menos inspiradas de Woody Allen, mas, que são boas de serem assistidas sem maiores exigências. E nesta altura da vida, quem pode cobrar mais dele?