Tem uma expressão que meu colega crítico Ivanildo Pereira cita em seus textos e encaixa perfeitamente para descrever Charlie Kaufman: “verborrágico”. O premiado roteirista e diretor é um artista repleto de personalidade e que apresenta temas recorrentes em suas obras como questões existenciais, relacionamentos e a memória. Seu novo projeto, “Estou Pensando em Acabar Com Tudo”, disponível na Netflix, segue a mesma linha.

Kaufman é um diretor capaz de desenhar universos dentro da mente de seus personagens e externá-lo para nós, o que fez em “Anomalisa” e “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. Digamos que essa também seja a sua proposta ao adaptar o livro homônimo de Iain Reid. Durante seus 134 minutos de projeção, acompanhamos um casal (Jessie Buckley e Jesse Plemons) que está a caminho de um jantar com os pais do rapaz e, a partir daí, a trama se desenrola de forma inusitada.

Aliás, fugir de obviedades e enveredar por estradas ousadas é outra característica das obras de Kaufman. No filme da Netflix, por exemplo, desde o início, fica estabelecido o clima estranho. Aclimatação que o acompanha até o subir dos créditos, por sinal. Parte disso se deve a curiosa verborragia do cineasta que nos faz mergulhar na mente da personagem de Buckley. Apesar de não recordar a quanto tempo está envolvida com Jake, sua mente parece um turbilhão de ideias analisando seu relacionamento. Bizarramente, em alguns momentos, há a impressão de que o namorado está lendo seus pensamentos e puxando diálogos a partir deles.

O que é mais excêntrico, no entanto, é que, em nenhum momento, eles parecem ser um casal. Enquanto ela pensa em terminar o relacionamento, Jake é frio e distante.  Há momentos, em que ele parece querer se aproximar dela, mas, na maior parte do tempo, seu comportamento é grosseiro e seco. O que é entendido, posteriormente, quando sua mãe (Toni Collete) revela sua personalidade antissocial. Diante dessa construção, é interessante fazer um paralelo com outros protagonistas de Kaufman; mais uma vez, o cineasta nos apresenta um homem cheio de inseguranças que se relaciona com uma mulher livre. O problema nessa construção é o papel que cabe as personagens femininas desse universo.

INCÔMODA IDEALIZAÇÃO FEMININA

Em uma das discussões na estrada, Jake afirma que a dificuldade ocorre pela idealização da figura feminina. Curiosamente, essa também é uma questão recorrente para o diretor, no entanto, o que antes causava simpatia, não envelheceu tão bem assim. Prova disso é a forma como tudo é projetado ao redor da protagonista: ela é enigmática, misteriosa e desperta curiosidade aonde passa. Mas há sempre algo estranho ao seu redor.

Primeiramente, há uma sensação de indiferença de sua parte, que se transforma em medo, angústia e a cada ciclo converge em uma faceta ainda desconhecida da personagem. Isso se reflete não apenas no seu comportamento como também nas variações de sua profissão e até mesmo de seu nome. Não demora muito para que percebamos que as mudanças expostas não partem dela, mas de Jake. Tornou-se costume nas produções de Kaufman termos um homem branco hétero que tem a sua vida modificada por uma mulher. Particularmente gosto do cineasta, no entanto, pare para pensar por um instante em Clementine (“Brilho Eterno”), Lisa (“Anomalisa”) ou Maxine (“Quero ser John Malkovich”). O que realmente sabemos sobre elas que não seja o reflexo de suas existências na vida de seus parceiros?

A situação agrava-se em “Estou Pensando em Acabar com Tudo” porque a personagem feminina torna-se um canal turbulento para exorcizar ou acalentar os demônios de Jake, apesar de revelar que não gostaria de ser um acessório da felicidade do namorado. O que atenua a situação são as discussões em torno da senilidade, morte e memória e da claustrofobia imposta pela câmera de Lukasz Zal.

A cinematografia do diretor polonês, responsável por produções como “Ida” e “Guerra Fria”, é gélida, angustiante e distrativa, o movimento constante de travelling nos impele a prestar atenção em elementos que podem surtir efeitos narrativos ou serem apenas distrações. Tudo vai depender do valor que cada cena tiver para que você monte o quebra-cabeça do que acontece na trama, por isso é importante destacar também a montagem de Robert Frazen, responsável por manter o ritmo mesmo diante dos monólogos extensos e das trocas abruptas de personalidade dos personagens.

MAR DE INTERPRETAÇÕES

O longa conta também com um elenco excelente para transpor suas alegorias. Jesse Plemons, por exemplo, mistura excentricidade e fragilidade, enquanto cabe a Toni Collette e David Thewlis representarem a efemeridade da existência e colocar em cheque repulsas do jovem casal. Esse desconforto é bem desenhado no rosto de Buckley que carrega os desgastes aos quais desembocam suas reflexões existenciais.

Observar essa construção é importante para que entendamos a reviravolta final do roteiro, que nos impede, por exemplo, de conseguir classificar a produção em um gênero específico, já que ela se debruça em discutir tantas coisas imprescindíveis e distintas.

“Estou Pensando em Acabar Com Tudo” é o tipo de produção digna de ser revista, que nos possibilita um mar de interpretações devido a verborragia de Kaufman e suas discussões sobre relacionamentos, algo que já deveríamos estar acostumados nas obras do cineasta, no entanto, talvez este seja o momento dele revisitar sua visão sobre as figuras femininas e seu valor igualitário dentro de um relacionamento. Vale a pena conferir e ter suas próprias sensações sobre onde tudo vai terminar, nem que seja dentro de um carro debaixo da neve.

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