A comparação é tola, mas há algo de verdadeiro nela: curtas são como contos. Sim, como o nome indica, os curtas-metragens, assim como seus companheiros literários, são curtos. Eles estão aqui num instante e, no outro, desaparecem. É preciso agarrar com as duas mãos os vislumbres deixados na retina antes que as imagens se percam para sempre. E não só pela curta duração. De alguma forma, esses filmes se revelam, frequentemente, mais abertos do que os longas, mais vastos.

E é nessa vastidão em suspenso que repousa a semelhança com os contos, especialmente os de James Joyce. Era no escritor irlandês que eu pensava enquanto assistia ao curta gaúcho Entre Aulas, um coming of age sobre crianças matando um dia de aula para visitar um casarão abandonado. É uma historieta, um conto, com um momento de epifania por parte de uma das crianças, que teria espaço em Dublinenses, por exemplo.

“Confluências”, de Dácia Ibiapina

O curta-metragem é, também, o celeiro dos cineastas jovens — embora haja exceções, como a veterana Dácia Ibiapina fez questão de frisar ao apresentar seu curta, Confluências. Uma mostra como a de Tiradentes permite, então, intuir em alguma medida o que está sendo preparado nas mentes da juventude.

E qual seria o tópico do momento? Deslocamentos, fronteiras — existências fronteiriças. É o que está em jogo no excepcional Chibo, sobre uma família na fronteira com o Uruguai que sobrevive do contrabando (há algo de muito bom sendo preparado no cinema gaúcho). O sonho da filha adolescente é, pasmem, morar na Argentina, nesta que é uma versão de Vidas Secas em plena friaca austral.

Desvios Diários: Domingo, de Bruno Risas

Já em São Paulo, temos Desvios Diários: Domingo, um tratado sobre a presença nordestina no estado. O deslocamento não está apenas na relação entre Nordeste e Sudeste, mas em um sentido mais amplo, no fluxo das transações em jogo, à medida que a câmera passeia por uma feira popular, de uma sacola de compras a outra. É um filme interessante, mas também criminalmente longo.

É o problema que aflige Goiânia: Notas Pendulares Sobre a Metrópole. Nele, além do mote do deslocamento (os movimentos pendulares da população em meio ao caos do transporte público, algo que, de alguma maneira, também aparece no excelente Marmita), apreendemos também o pecado maior da geração digital: a longa duração e a falta de ritmo.

Goiânia tem 16 minutos, mas toda sua tese já está expressa nos primeiros três. Desvios Diários tem um minuto a mais, e pelo menos 10 minutos desses são peso morto. Safo, a doce-amarga tem inexplicáveis 27 minutos.

“Chibo”, de Gabriela Poester e Henrique Lahude

Claro que é possível fazer curtas com uma metragem robusta: Chibo, por exemplo, tem 18 minutos. Mas parece que a praticidade do cinema digital está tornando nossos cineastas um tanto quanto indisciplinados. Como podemos filmar sem nos preocupar com rolos e mais rolos de película, a câmera segue rodando a esmo, num desinteresse que beira a autoindulgência. E como podemos editar sem a operação complexa de uma moviola, colocamos mais e mais cenas no filme, em vez de suprimi-las. Perdeu-se a capacidade de dizer mais falando pouco, o que não deixa de trair uma certa exacerbação egóica.

Continuemos explorando os deslocamentos. Há o processo físico, violento, de ser deslocado, ou melhor, removido. É o que aconteceu no RS (sempre ele) após as recentes enchentes, quando um prédio ocupado pelo MLB foi desocupado forçosamente pela polícia. O filme é composto por fragmentos captados por celulares dos moradores do local, e me parece interessante ao apontar novas possibilidades do audiovisual enquanto ferramenta coletiva e política. Walter Benjamin ficaria orgulhoso.

É verdade também que nem todos do público se impressionaram. É, sim, um filme precário, com alguns elementos de reiteração e saturação que tornam sua retórica melodramática, a despeito do seu ar de reportagem-denúncia. Vá lá. Mas a essas pessoas eu contra-argumentaria: com meros nove minutos, ao menos ele é curto.

“A Última Valsa”, de Jean-Claude Bernardet e Flávio Rogério

Curto também é um dos melhores filmes vistos na Mostra: A Última Valsa, de Jean-Claude Bernardet e Flávio Rogério (este último também co-diretor do excelente Um Minuto É uma Eternidade para quem Está Sofrendo). Aqui, estamos diante da última fronteira: a morte. Trata-se, portanto, de mais um deslocamento involuntário, um contra o qual o protagonista (o próprio Bernadet) quer se colocar, tomando as rédeas da própria morte, optando por não prolongar artificialmente a existência pela velhice afora, num que seria um arremedo de vida.

São os deslocamentos da idade que também dão o tom de Phoenix Club, embora sem o fatalismo de Bernadet. Aqui, um recém-aposentado precisa lidar com a súbita falta do que fazer. Sua solução é deixar a cidade e viver o seu crepúsculo em algum lugar ensolarado. Dois Nilos também coloca a idade em primeiro plano, desta vez na figura do cineasta Afrânio Vital, figura marginal relegada ao ostracismo cinematográfico. O documentário reúne, na figura de Vital, tudo o que há de mais interessante nessa temática maior abordada pelos curtas da Mostra: não é fácil se sentir deslocado, e certamente seria melhor ter grana e sucesso, mas a vida no avesso também é dotada de uma poesia própria.