A primeira passagem de Gabriel Mascaro pelo Festival de Berlim foi com “Divino Amor”, em 2019. O drama erótico estrelado por Dira Paes esteve na Mostra Panorama e provocava o público com uma distopia não tão distante da atual realidade brasileira dominada pelas igrejas evangélicas.
Agora, o cineasta pernambucano retorna à Berlinale dando um salto para a disputa do Urso de Ouro, o prêmio máximo do tradicional evento alemão. A distopia novamente ganha espaço, agora abordando um Brasil que deseja se livrar dos idosos em prol da produtividade. Tudo isso ambientado na Amazônia, mas longe da busca pela exuberância natural, focando, sim, nas pessoas.
No Festival de Berlim, Mascaro conversou com Natália Bocanera, nossa parceria nesta cobertura especial, para abordar a relação de O Último Azul com as obras anteriores e o contexto amazônico.
Cine Set/Coletivo Crítico – Muito se fala sobre seu cinema ter esta característica distópica e de realismo mágico. Sinto que O Último Azul conversa bastante com Divino Amor. Como você pensa sobre esses diálogos e conexões entre suas obras?
Gabriel Mascaro – É difícil me ver em perspectiva, mas há um desejo genuíno e singular no meu trabalho, que é pensar em um corpo desejante. “Boi Neon” traz o vaqueiro entre a moda e o cowboy, Divino Amor mostra as contradições de um mundo com regras próprias, tensionando com aquela experiência de fé e, em O Último Azul, acompanhamos um corpo idoso que percebe que é sempre tempo para sonhar.
Não sei se é tão consciente da minha parte, mas busco olhar da forma mais sincera possível para o que o roteiro e os personagens oferecem e me colocar à disposição do projeto. Quero que cada filme seja singular: O Último Azul é generoso com o espectador, se abre desde o começo com a dança, quase sendo um convite para bailarmos juntos. É uma história em que a personagem principal passa de par em par, criando novos encontros e brincando com a estrutura narrativa de um boat movie (filme de barco), a partir de elementos de uma distopia, com uma regra de mundo alterada por um sistema político e confrontada por um corpo idoso, septuagenário, disposto a sonhar. Por fim, há a fantasia, pois o filme não se situa em um espaço-tempo definido, logo, pode ser passado, presente ou futuro.
Cine Set/Coletivo Crítico – Como foi a escolha de situar o filme em Manaus?
Gabriel Mascaro – Quando me formei, fui trabalhar dando uma oficina de introdução audiovisual para povos indígenas, através do projeto Vídeo nas Aldeias. Foi uma experiência muito bonita e potente. Quando comecei a escrever O Último Azul, pensei em como seria importante situar este personagem em um certo isolamento do contexto social.
Na história, temos um governo com o plano de levar os idosos embora para uma colônia em nome da produtividade, fazendo com que os jovens possam trabalhar sem se preocupar com seus velhos. O Último Azul joga com a distopia.
Cine Set/Coletivo Crítico – Acho simbólico você trazer o contexto amazônico, embora não tente fazer com que a Amazônia tome conta do filme por si só, mas sim focando na humanidade da personagem. Chama a atenção que você percebe como o capitalismo está inserido ali, afinal, é um local mundialmente visado…
Gabriel Mascaro – Sim, o filme brinca com este debate sobre o corpo/produção do jovem que produz e do velho que atrapalha a produção. Temos esta dicotomia política com o idoso neste ponto de tensionamento. Esta relação também reflete a industrialização da Amazônia com as cenas do frigorífico de jacaré ou das apostas nas rinhas de peixes.
O Último Azul cria uma alegoria de uma reapropriação do lugar da fauna, de uma Amazônia tensionada e não pitoresca, tanto que fizemos a recusa de filmar na horizontal para não dar tanta ênfase às grandes paisagens, fechando mais no corpo humano, nas rugas da Tereza, um corpo que resiste.
Cine Set/Coletivo Crítico – Fale um pouco sobre a parceria com Tibério Azul para o roteiro do filme.
Gabriel Mascaro – Sempre escrevo em parceria, porque escrever roteiro costuma ser um ato solitário. Tibério é um grande amigo meu, começamos juntos na faculdade. Ele acabou indo para a música, mas sempre foi um entusiasta da literatura. Acabou que nos conectamos novamente e começamos a escrever juntos. Estou com um parceiraço e foi uma experiência muito divertida, até por ele não estar em uma vivência constante do cinema.
Cine Set/Coletivo Crítico – Para fechar, por que O Último Azul?
Gabriel Mascaro – O azul tem a ver com o céu e o desejo de voar da protagonista, além da baba azul, que pinga no olho.













