Sabe aquelas pessoas que estão sempre de mau humor, atacando até mesmo o vento? Esta é Pansy (Marianne Jean-Baptiste), personagem central do longa-metragem inglês Hard Truths, dirigido por Mike Leigh. Neste drama, até é possível se identificar com Pansy; no entanto, em muitos momentos, é mais fácil sentir um certo ranço dela.

Casada há mais de 20 anos com Curtley (David Webber), Pansy é uma dona de casa desagradável. Ela realiza todos os serviços necessários para que a casa esteja constantemente impecável. Por outro lado, contudo, não para de reclamar um segundo sobre o marido e o filho Moses (Tuwaine Barret) — um adulto de 22 anos —, a respeito deles mesmos. Nada nunca é bom o bastante para ela, nem mesmo quando assume a responsabilidade de fazer o que estava questionando. Ignorando aquele clichê de “reclamo porque faço melhor”. Isso faz com que todas as suas relações sejam rasas e a atmosfera ao seu redor se torne tóxica. Mas o que há por trás de tudo isso?

O roteiro, escrito também por Leigh, apresenta um contraponto à personalidade de Pansy: sua irmã Chantelle (Michelle Austin). Na verdade, Leigh constrói a narrativa como um espelhamento entre as duas irmãs. No primeiro momento, acompanhamos Pansy e o ambiente hostil que a convivência com ela resulta, para, então, conhecermos a dinâmica familiar de Chantelle. Cabeleireira, ela está sempre atenta tanto a ouvir as histórias de suas clientes quanto a atender às necessidades de suas duas filhas. Diferentemente da irmã, o riso e a leveza da jornada parecem predominar os caminhos que escolhe.

Leigh usa essa crônica familiar para falar sobre luto, depressão e insatisfação. Cada uma das irmãs lida com o luto de forma diferente, o que se reflete nos seus cotidianos, nas suas famílias e até mesmo nos espaços que ocupam. Enquanto a casa de Pansy é de cores neutras e impessoais, com a organização saída diretamente de uma loja de departamentos, o mobiliário chega a ser estéril; a de Chantelle é cheia de plantas, cores, lembranças, bagunça e muitas gargalhadas. Esta dinâmica se estende à relação de ambas com seus filhos: mãe e filhas vivem em cumplicidade e apoio, enquanto mãe e filho vivem se atacando e preferem a solidão à companhia um do outro. Conforme a narrativa se desenvolve, é mostrado que muito disso está interligado à maneira como as irmãs foram criadas e tratadas pela falecida mãe.

Nota-se que Pansy carrega muitas frustrações, que se refletem em seu comportamento rude e mal-humorado. Há, no entanto, um pedido de socorro em tudo isso. A personagem se sente incompreendida e solitária, encontrando abrigo nas horas de sono, quando se mantém isolada do mundo com o qual vive em constante batalha. Sua infelicidade é tão palpável que se torna uma doença que acomete toda a sua família, como um vírus. Uma pena que ninguém ao redor dela, a não ser sua irmã, perceba sua dor e desamparo. Nesse aspecto, Marianne Jean-Baptiste brilha por nos levar a uma gangorra de sensações junto com ela, que perpassa o ranço, a empatia, a tristeza e algumas gargalhadas secas.

“Hard Truths” trata da tragédia alojada no cotidiano, nas dores que acumulamos e despejamos nos outros, e nos distanciamentos que impomos a quem um dia amamos e que hoje só nos geram frustrações. É um grito de alerta sobre o quão adoecida nos deixa a insatisfação.