Em 1983, o futebol feminino foi legalizado no Brasil depois que um decreto de Getúlio Vargas o havia tornado ilegal por mais de 40 anos. Seria fácil comemorar o fato com um sorriso progressista bem comportado e dar o assunto por encerrado, mas os diretores José Antônio Garcia e Ícaro Martins vão além. Para acabar de vez com a caretice, só mesmo com as libertárias e libertinas jogadoras do Gayvotas F.C., cuja rotina de treinos envolve, como o perplexo presidente do clube faz notar, muito sexo e maconha.
Não é de se espantar, portanto, que o filme tenha sido barrado pela censura militar. O impressionante é que ele tenha sido rodado, para começo de conversa. Aliás, a obra parece tão transgressora hoje quanto em 1983: as regras da boa narrativa são jogadas pela janela, enquanto paus e bucetas pululam na tela em uma alegre anarquia. A geração que reclama no Twitter de cenas de sexo desnecessárias não está pronta para “Onda Nova”.
Aliás, seria interessante assistir às jogadoras despudoradas do Gayvotas em uma sessão dupla com as colegiais travessas de “Das Tripas Coração”, de Ana Carolina. Parece que os anos 1980 viram uma certa parcela do cinema brasileiro usar a liberação feminina como ferramenta para a própria liberação cinematográfica.
A dupla Garcia e Martins viria a realizar mais dois longas nos anos 1980: “O Olho Mágico do Amor” e “Estrela Nua”. Este último faz uma pequena aparição em “Onda Nova” como um easter egg na fala da personagem de Regina Casé, quando menciona que precisa dublar uma atriz que morreu. Pois bem, esse é justamente o ponto de partida da trama de “Estrela Nua”. Aliás, os três filmes contam com Carla Camurati como protagonista, embora aqui todo o time do Gayvotas divida o protagonismo de alguma forma.
Dessa forma, visto que o drama de nenhuma personagem é maior que o da outra, “Onda Nova” salta alegremente de situação em situação, com direito a mudanças tonais abruptas envolvendo aborto e suicídio. É parte do charme, apesar do caráter episódico que acaba arrastando um pouco a projeção no meio da transa toda, para usar o linguajar oitentista das personagens.
Por outro lado, como as maquinações da trama não são a atração principal da noite, o espectador está livre para sintonizar nas cenas que mais lhe interessam. Alguns exemplos disponíveis para sua escolha: a cena em que Caetano Veloso traça uma moça dentro de um táxi, ou aquela em que Walter Casagrande entra em campo com o cabelo preso em maria-chiquinha, ou, melhor ainda, aquela em que o mesmo Casagrande desvirgina uma moça em um sonho erótico, etc.
A lista é longa. A boa notícia é que, mais de quarenta anos depois, o filme finalmente recebe um lançamento comercial digno, para que você possa testemunhar toda essa libidinagem transviada com seus próprios olhos.













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