A trajetória do ator Ke Huy Quan no cinema é a prova de que você não deve parar de acreditar no seu sonho: ele mesmo disse isso ao ganhar o Oscar de Ator Coadjuvante há alguns anos. Ele estreou no cinema ainda criança, e de cara num blockbuster, vivendo o ajudante mirim do herói arqueólogo em Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984), de Steven Spielberg. Depois, apareceu também em Os Goonies (1985), uma produção spielberguiana, e então… Bem, ele fez muita TV e dirigiu alguns episódios de séries e peças teatrais. Quando estava prestes a se aposentar, surgiu em seu caminho Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022), no qual teve uma performance aclamada e que lhe rendeu, entre outros prêmios, o Oscar.

Agora, pela primeira vez, Ke Huy Quan protagoniza um filme: este Amor Bandido, mistura de comédia romântica com longa de ação. De longe, ele é a melhor coisa do filme. E, ao lado do ator, temos outra vencedora recente do Oscar, Ariana DeBose. Muito bem, Hollywood, por valorizar talentos diversos! Mas o filme em si não podia ser um pouquinho melhor?

Dirigido pelo estreante Jonathan Eusebio e produzido pelo ex-dublê que virou diretor David Leitch, Amor Bandido só capricha um pouquinho na ação… e se esquece de todo o resto. Se você adorou ver Ke Huy Quan lutando em Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, como um Jackie Chan cinquentão, então talvez consiga se divertir um pouquinho com este aqui. Esse é basicamente o único atrativo.

Na história, o ator interpreta Marvin, um pacato e bem-sucedido corretor imobiliário, que um dia recebe um cartão de Dia dos Namorados do seu antigo amor, uma moça chamada Rose (DeBose). Então, surge um assassino esquisitão em seu escritório, tentando matá-lo… e descobrimos que Marvin é um ex-matador que largou a vida do crime e agora passa a ser perseguido por outros bandidos e criminosos excêntricos que querem descobrir onde Rose está.

Desde o seu início, Amor Bandido não demonstra ter nenhum compromisso com o que chamamos de realidade — o herói, de cara, sofre um ferimento que, na vida real, o deixaria incapaz de fazer a maior parte das lutas do filme. Mas estamos falando de lógica de filmes de ação aqui. O problema é que o filme não balanceia essa inverossimilhança com nenhum outro elemento, não nos dá nenhum motivo para nos importarmos com a ação e os personagens. As cenas de comédia rendem um sorrisinho tímido, no máximo, e a história de amor é tão básica e rasa, sem fundamentação, que fica difícil se envolver com a trama.

Com 1h20, o filme não consegue desenvolver nada a contento, e os bons atores à disposição ainda recebem a difícil incumbência de recitar voiceovers constrangedores e óbvios, que ora explicam para o espectador o que estão sentindo, ora fornecem informações sobre o passado deles de forma bem rasteira.

E não deixa de ser uma opção muito preguiçosa do roteiro fazer com que Ke interprete, de novo, basicamente o mesmo personagem de Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo. Confiando-se apenas na simpatia do ator, o filme faz de Marvin um sujeito muito legal, que usa um suéter de coraçõezinhos — com um partido bem no lugar exato — e que se preocupa com os outros, às vezes até se esforçando para não matar seus oponentes.

Além disso, DeBose também se mostra bem decepcionante como a sua femme fatale e não consegue injetar charme ou química com Ke para justificar a trama. E o pobre Sean Astin aparece em duas cenas — para fazer de novo seu enésimo papel de cara legal — e também sai do filme desperdiçado. Pelo menos temos aqui uma pequena reunião de Os Goonies para os nostálgicos.

Se tudo é raso, resta ao filme tentar ser estiloso, banhando algumas cenas importantes em luz de neon ou colocando a câmera em locais inusitados durante algumas das lutas — como o interior de um micro-ondas, por exemplo. O diretor Eusebio tem experiência como coordenador de dublês, então essa é a sua especialidade. Porém, até a violência parece envergonhada, sem peso, como se o filme tivesse receio de se comprometer ao menos com o banho de sangue. O resultado é um longa que parece desesperado em divertir o espectador — sem conseguir.

Amor Bandido, então, é mais um exemplar recente daquele tipo de filme “espertinho” que quer misturar gêneros com irreverência, no qual até o Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo também se encaixa — entendo que ele tem seus admiradores, mas o considero muito superestimado. Então, se os melhores momentos deste remetem a um filme que já não curto tanto, você pode avaliar a minha apreciação aqui, leitor.

Pelo menos Ke Huy Quan continua bom de luta.