Se em Anora, Sean Baker tenta desmitificar o sonho americano por meio de uma trama em que uma profissional do sexo nova-iorquina cria uma ilusão de ascensão econômica ao se casar repentinamente com o herdeiro de um magnata russo, em Tendaberry acompanhamos a história de Dakota (Kota Johan), uma mulher de 23 anos que também mora em Nova York com o namorado, Yuri (Yuri Pleskun), e enfrenta diversas dificuldades sociais. Aos poucos, percebemos como essa metrópole, palco de eventos mundiais, também pode ser um cenário geográfico de pura decadência e solidão.

Em seu impressionante filme de estreia, a diretora Haley Elizabeth Anderson, uma moradora do Brooklyn com um olhar aguçado para as sutilezas de sua vizinhança, entrega em Tendaberry um retrato cru, sensível e melancólico da vida no limiar da instabilidade. Com profundo conhecimento da geografia emocional e física da cidade, ela constrói uma obra que pulsa com autenticidade, entre o documental e o dramático.

A escolha da fotografia de Matthew Ballard é central para a atmosfera de Tendaberry: as cenas externas, sempre nubladas, carregam o peso do céu sobre os ombros da protagonista Dakota, enquanto os interiores, parcialmente escuros ou bagunçados, remetem ao seu estado emocional opaco, em constante ruína. A paleta visual, deliberadamente abafada, espelha com precisão os sentimentos de uma jovem que parece atravessar a vida em câmera lenta, tropeçando entre os escombros do afeto e da segurança econômica.

Kota Johan entrega uma performance notável e discreta, mas carregada de pequenas tensões internas, muito em sintonia com o estilo quase documental do filme. Essa abordagem, aliás, confere um senso de realismo raramente alcançado com tamanha naturalidade. A câmera parece observar, nunca interferir, o que amplia o desconforto e a imersão.

Rodado na pós-pandemia, Tendaberry carrega consigo a responsabilidade de representar esse momento histórico. E o faz com dignidade: vemos máscaras, ruas vazias, lojas fechadas — mais do que isso, vemos os resquícios emocionais e sociais de uma cidade machucada. O caos silencioso do cotidiano pós-COVID se infiltra em cada esquina do filme.

A ruptura emocional da protagonista se aprofunda quando seu namorado, Yuri, decide retornar ao seu país natal, Ucrânia, em meio aos primeiros conflitos da guerra na região. A partir daí, Dakota começa a perder o chão, um declínio que Tendaberry acompanha com empatia, mas sem oferecer consolo. A cidade se revela particularmente hostil para os economicamente vulneráveis, e a diretora não suaviza essa realidade.

Há um tom assumidamente niilista no roteiro. As falas filosóficas e as reflexões existenciais da protagonista ampliam esse sentimento de desamparo, de uma juventude sem norte, esmagada entre crises globais e pessoais. A presença de trechos de vídeos de Nelson Sullivan, um videomaker amador dos anos 1980 que registrava sua vida na mesma vizinhança, costura passado e presente, revelando uma continuidade inquietante no que diz respeito ao sentimento de marginalização urbana.

Em um dos momentos mais curiosos de Tendaberry, o estabelecimento Tatiana aparece, remetendo à cena de Anora, em que a personagem-título e o grupo de russos buscam desesperadamente por Ivan. Essa cena (mesmo que não proposital) de certa forma também se conecta com o filme e funciona como uma ponte entre ficções urbanas de diferentes tempos, todas marcadas pelo mesmo tipo de desorientação emocional.

Apesar de tantas qualidades, o filme peca ao não desenvolver melhor a relação entre Dakota e Yuri. Após a partida dele para Kiev, há apenas breves contatos virtuais entre os dois e, posteriormente, a narrativa simplesmente o abandona. Isso cria uma lacuna que enfraquece o impacto emocional do desfecho. Instala-se a dúvida: Yuri a abandonou ou a guerra avançou a tal ponto que impôs um silêncio definitivo? Essa ausência poderia ter sido mais bem elaborada, pois o impacto da perda não é suficientemente explorado.

Tendaberry é, ainda assim, um filme poderoso e necessário. A diretora demonstra maturidade narrativa e uma notável sensibilidade estética em sua estreia, e nos oferece um retrato sincero da vulnerabilidade em tempos de colapso. Um cinema de observação, feito com inteligência e coragem.