Com Raw (2016) e Titane (2021), a cineasta francesa Julia Ducournau se tornou uma sensação com sua abordagem na vertente do body horror, aquele subgênero do terror que explora o medo corporal, que extrai terror e incômodo a partir do que pode acontecer com nossos corpos – Titane até venceu a Palma de Ouro em Cannes quando foi lançado.

Por isso mesmo, Alpha, o novo trabalho da diretora, chega com muita expectativa. Mas ao final da sessão, fica o questionamento: Ducournau ainda está realmente interessada no body horror, ou se manteve seguindo a tendência só porque ela lhe deu frutos? Porque, ao se assistir Alpha, a sensação é de tédio, de que a realizadora no seu terceiro filme e o primeiro após a aclamação, tentou, mas não encontrou mais nada de interessante para dizer com o gênero.

O filme se passa em uma França bizarra e alternativa, onde há uma pandemia acontecendo: uma estranha doença endurece a pele dos infectados, transformando-os quase em estátuas com aparência de mármore. Nesse cenário, a jovem Alpha (Mélissa Boros), num ato de rebeldia, faz uma tatuagem de um A no seu braço durante uma festa. Isso desperta a ira da mãe médica (Golshifteh Farahani), que trabalha em um hospital e teme que a filha acabe se contaminando. Enquanto isso, o tio da jovem (Tahar Rahim, em um visual desnutrido que impressiona) contrai a doença e começa a passar por uma transformação.

Nos tempos de hoje, Alpha parece fazer alegorias a Covid ou a Aids, mas é uma metáfora ampla demais para trazer ressonância à história. A situação ainda fica mal explicada pelo filme, que mostra médicos sem proteção no hospital em meio aos pacientes de uma doença supostamente muito grave.

O roteiro também tenta trazer para discussão o tema do bullying, que Alpha começa a sofrer quando insinuações sobre a sua doença começam a se espalhar na escola. Mesmo isso, porém, é mal trabalhado porque em diversas cenas os atores parecem ligados no 220V, e chega um momento em que tudo começa a parecer exaustivo e redundante. Salvam-se as atuações da novata Mélissa e da sempre ótima Golshifteh, que conseguem trazer um pouco de humanidade às suas personagens esquemáticas.

Alpha parece indicar que Julia Ducournau, tão cedo na carreira, já estaria presa na sua própria grife. É um filme tão mal concebido que a história consegue ser ao mesmo tempo óbvia e ainda cheia de furos. E para um artista, muitas vezes é vital se aventurar em outras direções. Afinal, o próprio mestre do body horror, David Cronenberg, reconheceu após A Mosca (1986) que tinha chegado ao ápice do subgênero e que não havia mais o que fazer nele, então partiu para outra. Depois de Alpha, os fãs de Ducournau que aplaudiram seus trabalhos anteriores deverão ficar torcendo mesmo por uma mudança de ares.

Autor

  • Ivanildo Pereira

    Jornalista, professor de cinema em cursos pelo Cine Set e crítico associado à Abraccine. Começou a escrever sobre cinema após fazer o curso Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica, do crítico Pablo Villaça. Literatura, música e cinema são seus maiores interesses.

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