Seth Rogen e Evan Goldberg surgiram com grande destaque no mundo do cinema em 2007 ao serem roteiristas de “Superbad – O Filme”. A comédia adolescente sobre dois jovens nerds trazia uma pegada sem noção dos filmes do gênero da década de 1980 com uma pegada tarantinesca relativa às referências de cultura pop ao lado de uma turma promissora do humor norte-americano – Jonah Hill, Michael Cera, Christopher Mintz-Plasse, Bill Harder e Dave Franco.  

“Superbad” deu origem a outras bobajadas assumidas como o maconheiro “Segurando as Pontas”, a fracassada nova versão de “O Besouro Verde”, o tolinho “É o Fim”, o polêmico “A Entrevista” até chegar no completo nonsense de “Festa da Salsicha”. Rogen, Goldberg e companhia nunca tiveram a pretensão de fazer ‘humor inteligente’ ou metido a tal com o repertório de piadas variando entre temas como drogas, sexo, celebridades, política, filmes, música, drogas, sexo, Hollywood, drogas, sexo e drogas e sexo de novo e de novo. 

Quando explodiram as denúncias do #MeToo na década passada ressignificando as relações sociais dentro de Hollywood, o grupo tinha tudo para sumir de cena com seu humor da turma do fundão da quinta série – James Franco, o mais prestigiado do grupo a ponto de ter sido o primeiro deles indicado ao Oscar, caiu em desgraça por acusações de conduta inapropriada em sets de filmagem. Parecia o melancólico fim daquela piada batida que o tempo faz questão de aposentar. 

“O Estúdio” serve como a grande volta por cima da trupe. E que volta! Com carta-branca da Apple, Rogen e Goldberg criam uma das séries mais ambiciosas dos últimos anos para zoar com Hollywood e toda a indústria do cinema. Apostando na anarquia, a dupla mira em tudo o que pode e mais um pouco: as bajulações das premiações e eventos de mercado, franquias imbecis, executivos com olho apenas nos cifrões e artistas com obsessões e seus preciosismos, os filmes de longa duração, etc, etc.  

A metralhadora giratória ganha ainda mais potência com a decisão de filmar episódios quase completos em planos sequências. Capítulos como da gravação de um filme em uma mansão multimilionária e, claro, da premiação do Globo de Ouro são um primor pela mise-en-scène inacreditável de centenas de pessoas, entre atores e figurantes, aliada a toda a movimentação da câmera por espaços sem fim com uma direção de arte tão detalhista que dá vontade de parar a cada segundo para observar todos os elementos. 

Evidente que comparações não faltarão com “Birdman”, ganhador do Oscar 2016 de Melhor Filme, Direção e Roteiro Original. A grande diferença é que aqui estamos livre do pedantismo arrogante de Alejandro González Iñarritu. O quarteto de roteiristas Rogen, Goldberg, Alex Gregory e Peter Heck pode até ter críticas pertinentes, mas, nunca se leva à sério como o mexicano.  

Sem abrir mão das piadas com drogas e sexo, “O Estúdio” sabe rir de Hollywood e justamente este grau de consciência da insanidade da indústria leva nomes como Martin Scorsese, Charlize Theron, Sarah Polley, Greta Lee, Ron Howard, Aaron Sorkin, Zoe Kravitz (totalmente drogada), Olivia Wilde, Anthony Mackie, Adam Scott a fazerem versões hilárias de si mesmos. Como se não bastasse, a série ainda consegue presenças de luxo de gigantes de rivais da Apple como Ted Sarandos, o todo-poderoso da Netflix, e Jean Smart, grande estrela de “Hacks”, da HBO. 

Toda a anarquia e excessos está a serviço de uma obra claramente apaixonada por cinema e Hollywood. Igual nós espectadores, o chefão do fictício estúdio Continental, Matt Remick (Rogen) venera aqueles diretores, atores, prédios com tantas histórias, quer ser amigo deles, ser reconhecido como um artista e não um mero executivo. Vibra diante de um grande filme, se preocupa com mais uma bobagem a ser lançada. Os parças dele, especialmente, Sal Saperstein (Ike Barinholtz, excelente) podem nutrir uma paixão menor, estando ali mais pela vibe transtornada, mas, como vivem tudo o que aquele universo pode oferecer! Bryan Cranston ensandecido no último episódio, Dave Franco drogadão na retrospectiva do último episódio e Catherine O´Hara com a versão irônica de Amy Pascal são a cereja do bolo. 

Para quem ama cinema e os bastidores da indústria igual Roger, Goldberg & cia, “O Estúdio” é uma série imperdível. Representa a vitória de um grupo que amadureceu mantendo a maior virtude: ser bobo sem perder a ternura.