Caio Pimenta aponta quais os filmes e atuações mais fortes saídos do Festival de Cannes rumo ao Oscar 2026 com destaque para “Sentimental Value”.
‘SENTIMENTAL VALUE’: A MAIOR APOSTA DE CANNES PARA O OSCAR
O Oscar 2026 de Melhor Filme está com nove vagas em aberto, afinal, a primeira delas já é de “Sentimental Value”.
Após o sucesso de “A Pior Pessoa do Mundo”, a retomada da parceria entre o diretor Joachim Trier com a atriz Renate Reinsve recebeu 19 minutos de aplausos, uma das maiores da história do festival. Adquirido pelo Neon, deve ser o carro-chefe do estúdio para o Oscar. Certamente estará na categoria máxima e tudo leva a crer que deve chegar em Direção, Atriz Principal e Coadjuvante com a Elle Fanning e possibilidades para a Inga Ibsdotter Lilleaas, Melhor Ator com o Stellan Skarsgard e Roteiro Original.
Para pesadelo do Brasil, “Sentimental Value” deve ser elegível para Melhor Filme Internacional, o que o tornaria favorito fácil para conquistar a primeira estatueta para a Noruega. Grande parte do longa é falado em norueguês com alguns trechos em inglês, fazendo-o elegível para a categoria. A única possibilidade para “O Agente Secreto” se sobressair seria um fortalecimento do Wagner Moura impulsionando o filme e o exército do país volta a fazer milagre nas redes sociais.
Ainda assim, seria bem difícil duelar contra uma produção com nomes conhecidos da indústria norte-americana abordando o mundo do cinema em um drama familiar.
UM AMERICANO NA FRANÇA?
“Nouvelle Vague” fez um Festival de Cannes longe de empolgar a crítica mundial e o júri em Cannes. Saiu sem prêmio algum. O longa do Richard Linklater sobre os bastidores do clássico “Acossado”, entretanto, fechou um acordo fundamental com a Netflix visando justamente a temporada de premiações.
Claro que um filme que fala sobre cinema, especialmente, um clássico de uma lenda como Godard e um movimento tão importante como a Nouvelle Vague pode ser lembrado pela Academia – há quem o compare com “O Artista”. Na imprensa internacional, fala-se que a Netflix fará dele a principal aposta para a temporada e convencer a França a escolhê-lo como o representante do país.
São situações que podem acontecer, claro, mas, vejo dificuldades para ambas: o streaming terá à disposição “Frankenstein”, nova versão do clássico comandada por Guillermo del Toro a ser lançada no fim do ano. Se o mexicano seguir caindo nas graças da Academia, o terror será o carro-chefe da Netflix com possibilidades de liderar as indicações pela força das categorias técnicas.
Sobre a França, nunca o país escolheu como representante para a disputa de Filme Internacional uma produção dirigida por um cineasta norte-americano. Apesar da homenagem a um dos clássicos franceses, certamente haveria críticas muito pesadas pela condução do Richard Linklater e pelo fato da distribuidora ser uma empresa de streaming dos EUA. Certamente Godard e a própria Nouvelle Vague seriam contrárias.
Caso tudo dê certo para o filme, vejo com boas chances de indicações na categoria dos internacionais, fotografia, roteiro e Melhor Filme.
PANAHI E A SITUAÇÃO DE ‘IT WAS JUST AN ACCIDENT’
“It Was Just An Accident” saiu com a Palma de Ouro e a consagração de Jafar Panahi. O cenário, porém, é complicado: afinal, dificilmente conseguirá a vaga do Irã em Filme Internacional por pressão do regime ditatorial. Com isso, precisaria ser adotado por algum país para chegar na categoria. A França e Luxemburgo, países coprodutores do longa, são opções. A questão é se eles aceitarão ou não repetir o que a Alemanha fez com “A Semente do Fruto Sagrado”.
A Neon é a distribuidora nos EUA e responsável pela campanha rumo ao Oscar. Acredito que a prioridade será focar nas categorias principais com foco em Melhor Filme e Direção. A dúvida é saber se a força de “Sentimental Value” e o apelo mais pop com a força brasileira de “O Agente Secreto” podem deixá-lo em segundo plano, fora que se a Academia ficar com apenas um deles, o norueguês está na frente.
ATUAÇÕES NADA ANIMADORAS
Passando agora para os prêmios de atuação, o Festival de Cannes não deixou grandes possibilidades para o Oscar 2026.
Jennifer Lawrence saiu aclamada no Festival de Cannes por “Die, My Love”, mas, a derrota para a Nadia Melliti, “Little Sister” em Melhor Atriz, demonstrou que a estrela norte-americana não foi uma unanimidade como apontou a crítica. Para piorar, o histórico de esnobadas da diretora Lynee Ramsay frente à Academia em nada ajuda – que o digam Tilda Swinton e Joaquin Phoenix.
Ainda assim, a Lawrence tem força suficiente na indústria para chegar à quinta indicação.
Já o Josh O´Connor tinha duas opções e ficou no meio do caminho por ambas. Nem “The History of Sound” e “The Mastermind” conseguiram empolgar Cannes. Para os dois filmes, a esperança é conseguir recuperação nos festivais do segundo semestre como Toronto e Telluride, mas, ainda assim, devem ficar pelo caminho.
Situação semelhante da June Squibb com “Eleanor the Great”, o primeiro longa dirigido pela Scarlett Johansson.
POUCAS CHANCES
Retomada da parceria entre Spike Lee e Denzel Washington a partir de remake de Akira Kurosawa, “Highest 2 Lowest” foi elogiado, mas, passou longe da aclamação em Cannes. O astro duas vezes ganhador do Oscar é considerado o ponto alto e pode tentar uma vaguinha em Melhor Ator, mas, deve correr por fora.
A sensação que tenho é “Highest 2 Lowest” está mais para “Destacamento Blood” do que “Infiltrado na Klan”, ou seja, considero improvável que tenha fôlego para avançar pelo segundo semestre com força suficiente para emplacar a indicação no Oscar de Melhor Filme.
Já “Eddington”, mesmo com a presença de Joaquin Phoenix, Austin Butler, Pedro Pascal e Emma Stone, foi um dos fracassos de Cannes, talvez, perdendo apenas para “Alpha”, da Julia Ducournau. A obra do Ari Aster deve ficar pelo caminho dentro da A24.
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De modo geral, o Festival de Cannes 2025 passou longe de apontar caminhos concretos para o Oscar do ano que vem. Se a edição anterior, colocava no radar obras como “Anora”, “Emilia Pérez”, “A Substância”, desta vez, o evento francês deve repetir o que aconteceu em 2021.
Naquele ano, “Titane” ganhou a Palma de Ouro, mas, ficou fora da festa da Academia. O único que vingou em Melhor Filme no Oscar de Melhor Filme foi o japonês “Drive My Car”. Neste momento, tudo indica que isso possa se repetir.

















