Há vários acenos em Oh, Canadá. Possibilidades que se desenham diante do fim de uma existência permeada por intensidade e escolhas talvez não tão felizes, ainda mais quando ambas levam as pessoas a vislumbrarem você como um gênio. Acredito que esta seja a melhor definição para Leo Fife (Richard Gere), que se apresenta diante de uma câmera para contar sua história.
Utilizando a metalinguagem, Paul Schrader (First Reformed) nos faz mergulhar nos fragmentos da jornada de um documentarista que está no fim da vida. Conhecido por ter desertado da guerra do Vietnã, fugido para o Canadá e se estabelecido como um gênio do documentário no país de língua francófona, somos convidados a compreender o que se passa em sua mente por meio das perspectivas que tem das suas decisões da juventude, e assim formarmos o nosso próprio retrato de quem é Leo Fife.
Nesse sentido, a pergunta que mais ecoa é se realmente podemos definir o protagonista. Entre idas e vindas, mentiras e verdades, fugas e amores, há a permanência de um homem fragmentado, que nunca foi capaz de mostrar sua verdadeira face para os que estão ao seu redor. Será possível que ele mesmo se conheça? A fotografia deixa esses questionamentos em aberto, especialmente diante do jogo de luzes para diferenciar o olhar sobre o passado e o presente mórbido que o assola. Andrew Wonder faz um trabalho interessante ao nos conduzir pelas lembranças que ora soam verossímeis, ora apenas como a lamentação de um homem que foge de responsabilidades e, consequentemente, das verdades que remontam sua vida.
Schrader traça o paralelo dessas lembranças com uma estrada, aqui posta literalmente como a jornada do protagonista de sua casa — essa que nunca mais retornará, abandonando o filho bebê e a esposa grávida — para a nova universidade em que dará aula. Sua fuga se amarra a essa primeira evasão e nos leva a indagar quais são as histórias que ficam pelo caminho. O abandono destas nos molda de que forma? As lembranças de Leo são verdadeiras ou um conjunto do que ele gostaria que fosse?
Sem apologias e inclinações políticas da minha parte, fico pensando no porquê da ênfase tão aguda no fato de o personagem ser um desertor de guerra por parte de seus pares. É curioso como o roteiro subverte a ideia de um homem corajoso, subversivo, que foi capaz de dizer um não ao exército norte-americano e se autoexilar. Enquanto a fala dos personagens que estão no Canadá denota essa percepção, o relato de Fife mostra sua verdadeira persona, um misto de estoicismo e niilismo. Durante toda a projeção, não o vemos fugir da guerra, mas sim de assumir compromissos e ter responsabilidade com as mulheres e as famílias que produz ao longo de sua vida/fuga. Talvez esse seja o motivo que o leva a ser tão apegado à esposa que está ao seu lado à beira de seu leito final. Um fugitivo que tem medo de ser deixado.
Leo está sempre em busca de uma nova vida. Abandonar as mulheres e filhos é um cumprimento para essa nova existência que possa suprir os silêncios e aflições que reinam no seu eu jovem, interpretado com estoicismo por Jacob Elordi. Ao mesmo tempo, desnudar essas memórias é um aceno para a mortalidade e para o que fica quando não estamos mais aqui. A imagem, elemento tão importante no ofício do protagonista, é tudo o que permanece diante de sua incapacidade de pertencer e firmar laços. Por isso, Gere observa Elordi como personagens que dividem o mesmo eixo.
É curioso como o ator mais experiente consegue copiar os trejeitos de Elordi e refinar o processo de amadurecimento desse homem quebrado e evasivo. Os dois se destacam nessa construção, diferente de Uma Thurman, que interpreta duas personagens apáticas, autoescondidas para encobrir as falhas de Fife. Sua composição, principalmente de Ema, soa fora de tom — tanto no dramático durante a entrevista documental quanto na conversa-chave que tem com o filho abandonado do companheiro. Tais questões enfatizam a frieza e a falta de ligação que a produção emite.
A falta de carisma de Leo, as escolhas fotográficas e os diálogos deixam a impressão de que falta algo. Ao mesmo tempo em que Oh, Canadá parece ter coragem de arriscar visualmente, há uma apatia nos olhos de seus protagonistas que faz com que o filme não consiga criar uma conexão enfática com quem o assiste, tampouco entre os próprios personagens.
Tanto Schrader quanto Fife estão numa busca por algo que não sabemos o que é, numa jornada que leva a destinos insólitos e que tornam seus protagonistas insossos e revoltantes. Não consigo não pensar no quão inescrupulosa e repugnante é uma figura masculina capaz de abandonar sem sentir nada. São essas decisões que vão esvaziando qualquer reflexão e empatia para com Fife e a realidade dolorosa que o envolve. Já para Schrader, tornam seu filme um fragmento de algo que poderia ter sido, mas que se desintegra diante dos nossos olhos — tal qual os sentimentos positivos que nunca surgem pelo protagonista.













