Considere o quarto de motel. Luzes néon brilhantes, profusão de espelhos, divisórias de vidro: espaço de visibilidade exacerbada. Mas nada do "olhe, mas não toque" cristão. Olhar, no quarto de motel, convida ao toque, se confunde com ele.
O quarto de motel traduz, portanto, algo de fundamental dos nossos tempos de tiktokers e ring lights. Na grande plateia de espectadores anônimos e solitários, eu e você (e, provavelmente, a diretora Rachel Daisy Miller) temos uma coisa em comum: nós gostamos de ver outras pessoas fodendo. Isso suscita questões, a mais importante sendo: como se filma o tesão?
Os jogos de espelhos aparecem nessa equação. O espelho do motel reflete o espelho da câmera frontal, e não dá mais para saber quem é quem — paus se multiplicam, braços e pernas e vaginas mil se fundem e se separam continuamente. Resta só a fabulação. É gostoso assistir a si mesmo e é gostoso contar histórias.
A própria arquitetura dos motéis fomenta o lúdico. Por fora, todas as cabines são padronizadas, anônimas. Impessoalidade, sujeira, decadência, sim, mas também tela em branco, deserto a ser povoado por dentro.
“Eros” consiste num experimento simples: diversos participantes se filmam em motéis. Há casais, trios e até onanistas solitários. Os quartos são os mais diversos, do chique ao chinfrim, passando por masmorras BDSM e jacuzzis com teto solar. O documentário é, portanto, prato cheio para os pervertidos de plantão (e os melhores de nós sempre o são).
Porque o pervertido, o bom pervertido, também sabe que o sexo é um troço profundamente engraçado. Fica por cima!, agora abaixa mais um pouco!, muda o ângulo!, etc, etc, etc. Encontrar a posição certa para penetrar, mudar o ponto de apoio dos cotovelos para as pontas dos pés, enfrentar a falta de fôlego, flexionar as pernas para encaixar melhor — enfim, toda uma mecânica patética digna de número de vaudeville.
O fato de estarmos assistindo a autorretratos, claro, traz certa artificialidade às interações. Faz parte do pacote. Interessa menos o que é dito e mais como a pessoa imagina que está dizendo o que diz. É parte do processo do ator, que precisa escolher a música certa, apagar as luzes, criar um clima para o seu solilóquio.
Entram em cena personagens ímpares, como a crente que paga de coach sexual e o coroa que faz a puta de terapeuta. E a cineasta, invisível exceto por uma breve sequência de abertura, se firma como essa grande voyeur-mor, observando, selecionando.
Claro, alguns dos personagens são mais interessantes que outros. Mas se os diálogos e monólogos interessam é pelo fato de que, por mais espontâneos que sejam, provavelmente também foram ensaiados na frente do espelho por um bom tempo, a sós. Estar a sós para estar junto, impessoalidade austera e criação conjunta. É através do sexo que se resolve essa tensão performática.













