Fuori tinha tudo para dar certo, mas alguma coisa saiu errada durante a sua execução. A história tem uma protagonista interessante, uma temática feminista, e as atrizes estão bem em seus papéis. No entanto, o filme do diretor Mario Martoni, o representante italiano no Festival de Cannes de 2025, acabou sendo um dos menos interessantes exibidos na competição.
O filme é inspirado na história real da escritora italiana Goliarda Sapienza, que se tornou uma figura cultuada e de destaque quando seu livro de sucesso “The Art of Joy” foi publicado no final dos anos 1990, já depois da sua morte. Interpretada pela veterana Valeria Golino, Sapienza é retratada no filme já na sua meia-idade, antes de se tornar uma autora, e vemos o período em que, nos anos 1980, ela foi presa por cometer um roubo. Na prisão, ela conhece outras mulheres, e forma uma grande e intensa relação com elas, especialmente com a jovem Roberta (Matilda de Angelis), e esse momento muda o curso da sua vida.
O longa nos informa nos créditos que Sapienza foi “uma das maiores escritoras do século XX”. O problema é que, vendo o filme, nunca entendemos o porquê disso, ou o que fazia dela uma personalidade ou autora tão especial. O roteiro adota uma abordagem fragmentada: num momento vemos Sapienza após a sua sentença, depois ela reencontra algumas das suas conhecidas do lado de fora da prisão, e depois temos flashbacks. Essas idas e vindas no tempo parecem querer seguir o estilo de alguns dos textos da autora, referenciados no filme, mas só deixam as coisas confusas e atrapalham a conexão emocional do espectador com a narrativa.
O que o filme tem a seu favor são as boas atuações de Golino e de Angelis, que conseguem retratar bem a fascinação mútua entre as suas personagens. É um relacionamento a princípio platônico, com a escritora inicialmente adotando a jovem inquieta e viciada como objeto de estudo, mas depois as coisas esquentam – com direito a uma cena ligeiramente esquisita no meio do filme, na qual as detentas tomam banho de chuveiro juntas. Apesar da bagunça, Fuori ganha uns pontinhos a mais – e em eletricidade – sempre que as duas atrizes estão em cena juntas.
No fim das contas, o longa de Martoni parece sofrer de déficit de atenção, e nunca consegue parar tempo suficiente num local ou num momento para explorar como de fato as suas experiências na prisão moldaram a pessoa, ou a escrita, de Goliarda Sapienza. Nos créditos, vemos um corte de uma entrevista dela a um programa de TV italiano, onde ela parece mais articulada e vívida do que a personagem que acompanhamos na tela. É lamentável que um momento pós-filme revele mais ao público sobre a pessoa retratada, do que as quase duas horas de dramatização que vimos anteriormente.












