Com “Anora”, “Anatomia de uma Queda” e “Guerra ao Terror”, Caio Pimenta traz a segunda parte do ranking dos melhores vencedores de Roteiro Original do Oscar entre 2000 a 2025.
16. JUNO
Antes de começar a lista, eu preciso fazer uma breve correção: o Lucas Moura me alertou nos comentários do vídeo anterior que, na verdade, são 26 vencedores de Roteiro Original entre 2000 a 2025 e não 25 como havia dito anteriormente. É aquela coisa que acontece quando a pessoa de Humanas se aventura pelas Exatas.
Com isso, faço apenas uma adição à lista passada na décima sexta posição do ranking.
Eu coloco a Diablo Cody com o delicioso roteiro de “Juno”. Nesta leva moderna de rever o conceito de maternidade, a comédia estrelada pelo Elliot Page tira o glamour da gravidez a partir de uma personagem nada romântica que assume desde o início não querer a criança. O grande acerto é que “Juno” nunca cai na tentação de romantizar a situação a ponto de fazer a protagonista hesitar na decisão.
A coragem e a naturalidade de como a Cody aborda temas tão delicados e ainda conseguir criar uma personagem tão cativante fazem de “Juno” um vencedor justo do Oscar. Isso mesmo concorrendo contra os ótimos roteiros de “Conduta de Risco” e “Ratatouille”.
Com isso, “Bela Vingança” cai para a 17a colocação, “Juno” assume a 16a posição e “Gosford Park” continua em décimo quinto lugar. Vamos então seguir com a programação normal a partir de agora.
14. TUDO EM TODO LUGAR AO MESMO TEMPO
“Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” abre a parte de cima do ranking na 14a colocação. Em 2023, a ficção científica fez a lavada no Oscar e os Daniels iniciaram o domínio justamente aqui.
Ok que passa longe da obra-prima que se tentou criar, mas, a dupla consegue equilibrar muito bem toda a loucura e possibilidades dos multiversos com ótimos personagens a partir de uma dinâmica familiar que funciona bem.
Não foi à toa que o Michelle Yeoh, Ke Huy Quan e a Jamie Lee Curtis saíram premiados.
Por outro lado, não nego que “Os Fabelmans”, “Os Banshees de Inisherin” e “TÁR” eram opções melhores e mereciam mais este Oscar. Inclusive se tivessem ganhado estariam em posições mais próximas do topo do que os Daniels alcançam.
13. SPOTLIGHT
“Spotlight” é o roteiro feijão com arroz muito bem executado. O grande acerto da dupla Josh Singer e o Tom McCarthy é compreender que o foco está na investigação da equipe jornalística sobre as graves denúncias de abusos de padres contra crianças dentro da Igreja Católica.
Desta forma, os personagens são desenvolvidos a partir disso e não o contrário.
Pode não ser o roteiro mais inventivo, mas, extremamente eficiente naquilo que deseja contar, algo que pode parecer simples, mas, acredite o simples bem feito é complexo demais.
Este Oscar de Roteiro Original, aliás, foi fundamental para “Spotlight” ganhar Melhor Filme; sem esta estatueta, dificilmente o longa ganharia do Oscar 2016.
12. MANCHESTER À BEIRA-MAR
A posição 12 da lista fica com “Manchester à Beira-Mar””. Se a temática do luto sempre foi delicada e abordada centenas de vezes pelo cinema, o Kenneth Lonergan coloca um ingrediente diferente ao jogar holofote sobre a dor de um pai com responsabilidade pela perda dos filhos, mas, isso a partir de um sujeito que guarda todos os sentimentos para si, nunca os externando.
Desta forma, o roteirista novaiorquino foge dos chavões de dramas do gênero sem os exageros típicos de Oscar bait com gritaria e momentos dramáticos exagerados, trocando-os pela sutileza, construções de situações delicadas e de um profundo respeito por aqueles personagens.
E no meio disso, ainda há espaço para um humor fino. Foi um ganhador indiscutível em 2017.
11. GUERRA AO TERROR
O Mark Boal conseguiu um feito raro em 2010: ganhar Roteiro Original por um filme de ação. Isso ocorre pelo fato do trabalho dele em “Guerra ao Terror” mostrar o impacto daqueles conflitos no psicológico dos soldados norte-americanos. A reta final mostra a conclusão chocante e triste do que viram aqueles sujeitos a partir de um diagnóstico seco.
Em qualquer outra temporada, a vitória de “Guerra ao Terror” seria justa, mas, não naquele ano. O Oscar 2010 de Melhor Roteiro Original deveria ter ficado com “Bastardos Inglórios”. Sem dúvida, a mais criativa das obras da filmografia do Quentin Tarantino.
Nos comentários do vídeo passado, o Frank Carbone, grande e querido crítico, falou uma verdade: seria muito bom se houvesse uma troca de vencedores – o Tarantino vencendo aqui e o Mark Boal ganhando por “A Hora Mais Escura” em 2013.
10. QUASE FAMOSOS
Entrando no TOP 10, aparece “Quase Famosos”. O Cameron Crowe consegue trazer as memórias do período de repórter da Rolling Stones para fazer uma história nostálgica, de tom confessional e com bastante carinho em relação àquele louco universo do rock n´roll.
E isso tudo abordando vários pontos: da relação do jovem com a mãe, à primeira paixão, às delícias e dificuldades da vida na estrada e muito muito mais.
O Oscar 2001 também não trazia uma concorrência das mais pesadas – no máximo, o Lee Hall com “Billy Elliot” fez um trabalho que poderia ameaçar o Cameron Crowe. De qualquer modo, foi um grande acerto da Academia.
9. ENCONTROS E DESENCONTROS
“Encontros e Desencontros” é o meu nono colocado no ranking. A Sofia Coppola apresenta o desnorteamento causado pelo jet leg a partir de duas figuras também fora de órbita, cada um com seus dramas.
A conexão entre eles mostra-se daqueles momentos mágicos do cinema graças a um texto suficientemente inteligente para não entregar tudo, deixando as lacunas para preenchermos à nossa maneira.
Foi uma vitória tranquila para “Encontros e Desencontros” sem adversários fortes para ameaçá-lo.
8. MEIA-NOITE EM PARIS
Último grande trabalho de Woody Allen nos cinemas, “Meia-Noite em Paris” conquistou a categoria no Oscar 2012. E como poderia ser diferente? O novaiorquino vai até a capital francesa faz sua eterna persona, aqui interpretada por Owen Wilson, para brincar com lendas da cultura mundial.
De Dalí a Hemingway, o diretor/roteirista cria uma comédia fascinante pela inteligência, cinismo e bom humor típica dele aliada a uma reverência homenagem a figuras que tanto influenciaram Allen ao longo dos anos.
Sim, de certa maneira, o Woody Allen havia feito isso com “A Rosa Púrpura do Cairo”, mas, isso em nada apaga a excelência de “Meia-Noite em Paris”. O único candidato que poderia ser uma outra possibilidade à altura naquele ano era o Ashgar Farhadi em “A Separação”.
7. ANATOMIA DE UMA QUEDA
A sétima posição fica com o excepcional “Anatomia de uma Queda”. Poderia ser mais uma história sobre quem matou com um drama de tribunal das mais convencionais possíveis.
O Arthur Harari e a Justine Triet, entretanto, estão interessados mesmo na construção da justiça e da própria verdade.
Deste modo, fazem um roteiro que se reinventa a cada instante, além de criar uma personagem absolutamente intrigante.
A vitória de “Anatomia de uma Queda” ser indiscutível em uma categoria que ainda tinha “Vidas Passadas”, “Segredos de um Escândalo” e “Os Rejeitados” mostra a excelência do roteiro.
6. ANORA
O grande ganhador do Oscar 2025 de Melhor Roteiro Original aparece na sexta posição. Em “Anora”, o Sean Baker aprofunda sua análise da desconstrução do sonho americano a partir de uma personagem fascinante que transita entre o interesse, o amor e ser vítima de um bando de ricaços sem noção.
E conseguir ser quatro em um – comédia romântica, romance, screwball comedy e drama – sem perder a unidade é fantástico.
Escutar que “Anora” é uma Sessão da Tarde bobinha dói os meus ouvidos, me deixa cego de raiva. Juro. É como se grandes histórias somente pudessem ser feitas nos dramas, logo, qualquer coisa fora disso, é diminuída. Mas, enfim, todos podem falar o que quiserem, não é mesmo?
Nesta temporada do Oscar, apenas “A Substância” estava à altura do vencedor e poderia duelar. Uma conquista da Coralie Fargeat não me deixaria nada triste, porém, fico plenamente feliz com a estatueta nas mãos do Sean Baker.





















