Para ler ouvindo: “Poema Enjoadinho” – Vinícius de Moraes
Como dizia Carlos Drummond de Andrade: “Filhos, filhos, por que tê-los? Se não tê-los, como sabê-los?”. A máxima do nosso brasileiríssimo poeta se encaixa em muitas circunstâncias da vida na simbiose entre pais e filhos.
É claro que o roteirista Brad Ingelsby (celebrado pela minissérie “Mare of Easttown”) não bebeu dessa fonte densa de Drummond. Já a direção de Michael Pearce (de “A Fera”) vive de altos e baixos na nova produção da Apple TV+ que também tem o dedo de Ridley Scott.
Com Julianne Moore e Sydney Sweeney encabeçando o elenco desse drama familiar/thriller, somos apresentados a “Echo Valley”, uma fazenda já decadente que pertence a Kate (Moore). Ela passa por um processo de luto e tenta se recuperar da perda da esposa. A filha Claire (Sweeney), do casamento anterior, é uma jovem problemática e viciada. Entre idas e vindas de reabilitação, desaparecimentos e crises, a mãe ainda acredita no potencial da garota. Até que aparece o traficante Jackie (Domhnall Gleeson) cobrando por uma dívida e para piorar, Claire está envolvida em um crime e usa do amor da mãe para manipular e obter tudo o que quiser dela.
Ao longo de “Echo Valley” fiquei com esse fragmento de Drummond na cabeça imaginando e tentando me colocar no lugar de Kate, uma mulher solitária, falida e sem grandes felicidades na vida e que se apaga na única coisa importante: a filha. Ok, eu consigo entender até certo momento o drama da mãe que quer salvar a cria.
Contudo, as soluções apresentadas a partir do rompimento do drama para o thriller são simplesmente absurdas. Não há nada plausível e consistente nesse roteiro e direção que transita por estes gêneros e não consegue uni-los de maneira minimamente interessante. Até os jogos de câmeras e fotografia escura para mascarar a mediocridade como um todo é risível.
O plot twist no final é até interessante, mas soa artificial quando se pensa no conjunto. Sabe o choque pelo choque por não ter o que contar? Pois bem, é isso, meus amigos.
O que se salva é o bom elenco, como Moore, Gleeson e Fiona Shaw. Esta última, a amiga que todos queriam e deveriam ter. Devo destacar a Sydney Sweeney, uma atriz interessantíssima e que vem demonstrando cada vez mais talento e comprometimento para além de sua incontestável beleza e o status de nova it girl de Hollywood.
Voltamos ao fragmento de Drummond e toda a sua complexidade das relações familiares entre pais, mães, filhos e filhas. Quer dizer, cada um sabe de suas experiências enquanto rebentos e agora genitores, pois relações tão estreitas como estas não é algo tão determinado. Mas entre o poema e suas treze estrofes em seus pouco menos de cinco minutos de leitura são mais consistentes e interessantes que os 105 minutos desse esquecível “Echo Valley”.












