O massacre ocorrido em Manaus durante a pandemia da Covid-19 ainda é um assunto mal digerido pela cidade. Passados pouco mais de quatro, cinco anos de uma tragédia inominável, a capital amazonense seguiu adiante na marra, sem compreender sobre o que realmente aconteceu. Não à toa permanece dominada pela corrente política e social que capitaneou tamanha desgraça e pouco se aborda a dimensão do que houve no dia 14 de janeiro de 2021, data em que os hospitais entraram em colapso pela falta de oxigênio.
O curta-metragem “Garrote” busca ocupar este espaço de reflexão sobre o tema. De longe, é o maior – e talvez um dos poucos – mérito do filme protagonizado por Amanda Magaiver e Begê Muniz. Na obra de pouco mais de 24 minutos, eles fazem um casal em início de relacionamento indo morar juntos bem no início da pandemia em um confortável apartamento de classe média no Centro de Manaus. O caos que toma conta da cidade se reflete entre os dois com o bonito conto de fadas romântico transformando-se em uma relação tóxica.
A obra marca as estreias de Bruno Pantoja e Zemaria Pinto no cinema: o primeiro como diretor e o segundo na função de roteirista após trabalhos como escritor e dramaturgo. E fica nítido como “Garrote” traz parte de seus problemas justamente da falta de experiência de ambos com a linguagem cinematográfica. De um lado, temos um filme que se apoia grande parte em diálogos, logo, os personagens falam tudo o que sentem e pensam a todo momento.
Este falatório se mostra voltado para uma ilustração da divisão social e política da cidade ao colocar a personagem de Amanda mais ligada à esquerda, pró-vacina e humanista, enquanto Begê faz o tipo negacionista, machista e bolsonarista. Seria um conflito rico não fosse a forma açodada como isso se cria, afinal, o personagem masculino sai do perfil príncipe encantado para um troglodita em um curto espaço de tempo, enquanto a outra fica como sendo a voz da racionalidade.
Aqui, entra a incapacidade de “Garrote” em conseguir pensar visualmente esta história. Desde as primeiras cenas no bar e na orla de Manaus, as cenas possuem um ar teatral com a câmera em plano aberto ou médio com os dois atores no centro. Não há closes, planos-detalhes nem mesmo um trivial plano e contraplano. Isso se agrava quando vamos para o apartamento em que não se pensa o imóvel como um personagem, algo visto diversas vezes ao longo da história do cinema – de “Gritos e Sussurros” a “Amor” e até em obras amazonenses com todas suas limitações financeiras como ocorreu com “O Barco e o Rio”, de Bernardo Abinader.
A direção de arte se limita a um quadro de Frida Kahlo deixado no chão, a direção de fotografia se mostra incapaz de trabalhar sombras, luzes ou qualquer elemento capaz de dimensionar visualmente a situação, os figurinos são os mais genéricos possíveis e por aí vai. A obra parece engessada para além da falta de dinheiro; não há um entendimento de como é possível explorar a cênica minimamente para criar alegorias e signos ao contar aquela história.
Sendo um filme de primeira viagem, pode-se relevar muitos dos problemas de “Garrote”, mas, isso não significa que eles não estejam lá e gritem a cada segundo. Por fim, igual ocorrera em “O Buraco”, de Zeudi Souza, a preocupação na mensagem e condenação política à ignorância da extrema-direita é compreensível, mas, não podemos cair na armadilha que negacionistas e irresponsáveis pelo caos em Manaus – assim como machistas violentos no caso do curta estrelado por Jocê Mendes e Victor Kaleb – são exclusividade apenas dos bolsonaristas; esquerdomachos e estúpidos também sobram do lado da esquerda, infelizmente…












