Para ler ouvindo: “Não Foi Cabral” de MC Carol:

“Nos livros, crônicas e filmes que inspirou, Carlota Joaquina aparece como uma esposa infiel e uma mulher feia, maquiavélica e infeliz. Há suspeitas, mas nenhuma comprovação, de que realmente tenha sido infiel. Feia, maquiavélica e infeliz, com certeza foi. Poucas mulheres marcaram tanto o seu tempo quanto Carlota Joaquina. Nenhum outro personagem da época de D. João VI passou para a História com imagem tão polêmica e caricata. Inteligente, briguenta e vingativa, ela mereceu dos historiadores perfis diametralmente opostos.” Laurentino Gomes

É simbólico os festejos dos 30 anos de “Carlota Joaquina – a Princesa do Brazil” justamente no ano em que os olhos do mundo se voltam – novamente – ao cinema nacional: vencemos Oscar, Cannes, Berlim e diversos outros prêmios mundo afora celebrando nosso honroso cinema.

É simbólico também pensar que Carlota Joaquina é reconhecido como o marco do cinema da retomada por conta da extinção da Embrafilme no governo Collor. Nesse sentido, o retorno três décadas depois e restaurado em 4K é um motivo de festejo por seu histórico e dos potentes filmes que vieram junto com ele nessa leva finalizando o século XX com chave de ouro e adentrando o novo milênio de maneira espetacular, e o atual momento do cinema nacional que, sabemos, entre altos e baixos continua exemplar com seus títulos diversos, gêneros e nomes que fizeram e fazem história carregando um legado incontestável de luta e resistência pela e para a sétima arte.

Nessa onda de representações é importante ressaltar o olhar clínico e cínico de Carla Camurati. Então jovem atriz do primeiro escalão da TV Globo e sex symbol, a atriz resolveu ser a antítese do que se espera de uma figura estética como a dela. E sua coragem e sagacidade estão impressas nessa produção em que ela estreia como diretora de longa metragem (já havia dirigido dois curtas), roteiriza, produz, distribui e ainda faz um pontinha. Um risco acertado que ajudou a colocar o cinema nacional de volta aos trilhos.

Não espere de Camurati um registro fiel à vinda da corte portuguesa para terras tupiniquins. Sua preocupação não é essa. Quer dizer, há uma coisa aqui, ali e acolá que representa os fatos históricos. Entretanto, a ousadia tropical do espetáculo teatral da diretora é o que chama atenção e não somente por seu deslumbre estético com cores vibrantes, predominando o vermelho sangue. 

Camurati nos convida a adentrar um Brasil performático, histérico, satírico e decadente desde os anos de 1800. O caos econômico, as trapalhadas de um reinado irregular, uma princesa manipuladora e com sede de grandeza, luxo e ostentação enquanto o povo padece são fatos históricos tão cafonas quanto bizarros que ainda vigoravam em 1990 e ainda permanecem passados trinta anos. A caricatura cínica e debochada da cineasta nos revela um Brasil que é caricatura de si mesma e é por isso que o filme funciona tão bem, pois ainda estamos familiarizados com esse tema que nunca sai de moda passados séculos.

Os enquadramentos, os sotaques carregados e exagerados, os figurinos, tudo nos remete toda essa alegoria cenográfica de um país que não se leva à sério e entende que isso, para o bem ou para o mal, é uma válvula de escape para resistir ao histórico de exploração do povo negro, indígena, os mais pobres, que construíram essa nação para sustentar a monarquia, a elite e afins.

Mesmo com uma direção primorosa, a produção de nada seria sem a verdadeira realeza da arte e cultura do Brasil: Marieta Severo e Marco Nanini. A dupla deita e rola e um timing perfeito entre uma princesa megalomaníaca, ninfomaníaca, além de “teimosa, dura, turrona e irredutível” (Gomes, 2007, p. 186) e um monarca bonachão sem pulso firme.

Desconstruindo a Família Real e, principalmente, a sua figura mais emblemática e controvérsia, Carlota Joaquina; Carla Camurati constrói uma fantasia lúdica empiricamente e propositalmente extravagante para narrar essa história do Brasil que é pouco contada nas salas de aula e nos livros de história: tudo uma grande deboche de uma nação que aprendeu, na marra que, com “o jeitinho brasileiro” é que se consegue sobreviver à uma herança colonial tão histórica quanto vexatória.

Fonte: Gomes, Laurentino 1808 : como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. São Paulo : Editora Planeta do Brasil, 2007.