Enquanto assistia “Sorry, Baby”, lembrei muito de “Nunca Raramente Às Vezes Sempre”. Não que os dois filmes sejam parecidos – não são -, mas falam da escolha de mulheres sobre seus corpos e vidas diante de adversidades a que somos acometidas. Em “Sorry, Baby”, acompanhamos a tentativa de Agnes (Eva Victor) de seguir em frente depois da pós-graduação.
Dirigido pela própria Eva Victor e contado em media res — aparato narrativo em que a história começa a ser contada pelo meio —, o roteiro é dividido em cinco atos que acompanham momentos da trajetória da protagonista. Os atos interligam sua relação com a amiga Lydia (Naomi Ackie) e, consequentemente, Jane, seu bebê; o roteiro, também assinado pela diretora, utiliza estereótipos para comparar as duas personagens. Enquanto Lydia é extrovertida e tem dificuldades para escrever sua dissertação, Agnes é academicista, introvertida e atrai a atenção e a predileção do seu orientador.
Quando postas lado a lado, é fácil criar conexão com Lydia, no entanto, isso torna a protagonista apática. Agnes pouco fala, tem comentários incômodos e desajustados que são validados com os close-ups da câmera de Mia Cioffi Henry que evidenciam as perturbações que rondam a personagem. A atmosfera claustrofóbica e escura com que a sua casa é captada é um elemento importante para revelar o quanto intimamente a protagonista está melancólica, ferida e magoada; não sem justificativa, uma vez que Agnes foi vítima sexual do orientador.
O roteiro alinhado à fotografia e à mise-en-scène contextualizam de forma sutil toda a situação, mostrando o modus-operandi do professor, o qual inclui não apenas a abordagem com as alunas, mas também a maneira como sai de cena sem que a situação o prejudique ou vire uma sinuca de bico para a instituição em que atua. Em contraponto, “Sorry, Baby” está preocupado em contar como Agnes lida com essa situação e, nisto, o filme se torna apático, como a personagem que acompanhamos.
A protagonista assume uma postura niilista e estoica. Ela tenta lidar com indiferença com o crime e a atitude da universidade, especialmente das mulheres que lideram a instituição; por outro lado, ela busca na própria pesquisa e no trabalho forças para seguir a vida, mesmo após o trauma. Entre questionamentos, escrita, cuidado com o gato, sexo e aulas, o abalo pelo que perdeu diante da violência vai perdendo o impacto sobre seu corpo e sua vida, ainda que a tristeza e suas marcas permaneçam.
Isso tudo é um tanto apático — e irritante —, porque a protagonista transparece essa sensação e o roteiro se fundamenta no cotidiano, em mostrar que o processo de recuperação não acontece em um piscar de olhos, mas continuamente com dias bons e dias ruins, altos e baixos, cuja maior importância é a constância e a persistência para não desistir de lutar por si mesma.
Assim “Sorry, Baby” não chega a ser indigesto e difícil de digerir, mas busca mostrar como esta mulher encontra forças para digerir o trauma e seguir sua vida. Talvez esta seja a melhor vingança.













