A maior qualidade da minissérie documental A Mulher da Casa Abandonada, do Prime Video, é de conseguir abordar as diferentes facetas de uma história bizarra e pavorosa. Afinal, há muito mais aqui do que um mero mistério para interessar os fãs dos documentários true crime, embora a atração co-dirigida por Kátia Lund (de Cidade de Deus), junto com Livia Gama e Yasmin Thayná, se encaixe perfeitamente nesse formato de atração já consagrado e aprovado pelo público. É um documentário padrão, mas que, mesmo sem inovações, consegue explorar bem seus temas.
E o primeiro deles é a curiosidade jornalística genuína, que muitas vezes rapidamente descamba para o sensacionalismo. Tudo começou quando o jornalista Chico Felitti descobriu uma mansão em estado decrépito no bairro nobre de Higienópolis, em São Paulo, e a estranha moradora do local, uma mulher com jeito peculiar e que andava pelo imóvel com o rosto pintado de maquiagem branca, tal e qual uma visão de filme de terror. Essa mulher, Felitti veio a descobrir após investigar e criar um podcast sobre o caso, é Margarida Bonetti. Logo que ele revelou a história, as câmeras do Cidade Alerta e outros programas mundo-cão da TV apareceram, querendo entrar na casa misteriosa.
Acontece que Margarida, quase 25 anos antes, esteve envolvida em um caso escabroso de maus tratos e escravidão. É melhor não estragar essas revelações para o espectador que ainda não ouviu o podcast, mas a história real também traz elementos da mentalidade elitista brasileira, que foi aos Estados Unidos praticar lá o nosso conhecido jogo de casa grande e senzala.
Desigualdade social e pobreza são parte crucial da história, e a minissérie pela primeira vez dá voz à vítima do caso, a senhora Hilda Rosa dos Santos. Os depoimentos dela são, em vários momentos, de partir o coração e despertam uma justa indignação no espectador. A produção também viajou aos EUA para investigar testemunhas e autoridades envolvidas no caso.
A Mulher da Casa Abandonada, a minissérie é bem dinâmica: os episódios ficam entre meia hora e 40 minutos, e a montagem é ágil. Além de depoimentos, a obra se vale de imagens de arquivo, reconstituições e áudios de conversas entre Felitti e Margarida, onde esta tenta se explicar – de resto, ela não aparece no documentário. De fato, é uma atração que prende o espectador, com música dramática e até momentos pontuais em que as cenas reconstituídas exageram um pouco na vilania de Margarida. Felizmente, esses trechos são poucos e na maior parte do tempo, os episódios evitam o sensacionalismo e as caricaturas.
Para os já iniciados no formato de documentários internacionais de true crime, essa atração brasileira não fica a dever, nem em forma nem em conteúdo, tipicamente nosso. E ao final, fica também a noção de que é uma história sobre o poder atual da mídia, e sobre como formatos como podcasts mudaram a forma como o público consome informações, a ponto de influenciar os meios de comunicação tradicionais. A Mulher da Casa Abandonada não se detém muito sobre esse tema, mas ele está lá, e reflexões como esta o tornam mais interessante do que um mero produto. Ao não sensacionalizar – demais – o seu tema, e ao enfocar o lado humano de uma história tristemente bizarra e real, a minissérie se torna um belo trabalho para quem se interessa por mistérios, jornalismo, crime, ou simplesmente a realidade brasileira.













